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terça-feira, 13 de maio de 2025

Uma comunicação desarmada e desarmante (artigo do Diác. Eduardo Wanderley)

Nessa segunda-feira, 12, sua santidade, o Papa Leão XIV, teve sua primeira audiência papal com os jornalistas. Após um caloroso aplauso por parte dos presentes, fez sua saudação inicial. Em seguida, invocou o trecho de Mt 5, 9, bem-aventurados os pacificadores. Aproveito o discurso do papa para me perguntar: somos pacificadores quando nos comunicamos uns com os outros?

O romancista francês Michel Buton falando da literatura e da perda do espírito literário na Europa, diz que "Há uma enxurrada de publicações, mas uma estagnação intelectual. A causa é uma crise de comunicação. Os novos meios de comunicação são admiráveis, mas causam um barulho tremendo. A cada dia surgem notícias e mais notícias e mais notícias, e todas elas desaparecem novamente. Essa enxurrada de informações é autodestrutiva. É significativamente mais difícil descobrir o que realmente está acontecendo hoje do que há vinte anos. No final, fica a impressão de que nada acontece." (Die Zeit, 12/07/2012). Nesse dia 13 de maio, aprendamos com Nossa Senhora a comunicar não só com palavras, mas também no silêncio.

Nessa leitura, podemos nos encontrar numa grande teia onde cada um de nós recebe informações por vezes brutas, por vezes polarizadas, ou seja, com um facho de luz estreito, em apenas uma direção. A falta de um mediador acreditador, como um revisor ou parecerista dos trabalhos acadêmicos, acaba por produzir uma comunicação que mistura realidade com ficção, ao gosto do leitor. Ou seja, estamos perdendo a capacidade de comunicar a verdade. Quando muito, ela vem envolta de alucinações que agradam um grupo maior ou menor de leitores.

Podemos estar domesticando as fake news e as criando como pets, animaizinhos que elegemos dignos de nossos afetos e carinhos. Aquelas são altamente perigosas. Estes, em relações equilibradas, são muito bem-vindos.

Podemos escolher comunicar o mal ou comunicar o bem. O evangelho nos lembra que a boca fala do que o coração está cheio. Essa pode ser uma boa métrica para nosso exame de consciência.

A comunicação positiva gera um encantamento. Quem de nós não conhece alguém que está sempre dizendo coisas boas, que está sempre com um sorriso, que às vezes comunica mais que as palavras? Isso nos encanta e, quiçá, nos contagia.

Nossa comunicação deve ser "desarmada e desarmante", nos diz o Papa Leão. Palavras de incentivo, de paz. Vamos pedir a Deus o dom da palavra de paz. Que seu Espírito nos ajude nessa busca sincera por um mundo de paz. E se você chegou até aqui nessa leitura, vamos rezar, cantando ou em palavras, com são Francisco de Assis: Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz...

terça-feira, 6 de maio de 2025

30 anos formando pés que se põem a caminho (artigo do Diác. Eduardo Wanderley)


Diácono Eduardo Braulio Wanderley
Paróquia de São Camilo de Léllis - Conjunto Lagoa Nova I - Natal 
Arquidiocese de Natal


Neste dia 7 de maio de 2025, a Escola Diaconal Santo Estêvão completa 30 anos de existência em nossa Arquidiocese. São 30 anos formando ministros ordenados que são verdadeiras pontes entre o altar e as periferias. Você conhece o serviço do diácono formado em nossa Escola Diaconal?

A categoria do serviço é um dos pés que formam o tripé clássico das manifestações da Igreja: Martiria (testemunho), Liturgia e Diaconia (serviço) devem ser as marcas da Igreja no mundo e o diácono é o guardião do serviço. Sua presença na Igreja é ícone da diaconia de todos nós.

Sobre o serviço do diácono, o Papa Francisco, na homilia preparada para o Jubileu dos diáconos em Roma, põe em relevo três aspectos do ministério-serviço diaconal: o perdão, o serviço desinteressado e a comunhão.

"A proclamação do perdão é uma tarefa essencial do diácono. [...] E o diácono, investido pessoalmente de um ministério que o leva às periferias do mundo, compromete-se a ver – e a ensinar os outros a ver – em cada um, mesmo naqueles que erram e causam sofrimento, uma irmã e um irmão feridos na alma e, por isso mesmo, mais necessitados do que qualquer outro de reconciliação, de orientação e de ajuda".

"E chegamos ao segundo ponto: o serviço desinteressado. O Senhor, no Evangelho, descreve-o com uma frase tão simples e clara: «Fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca» (Lc 6, 35). São poucas palavras, mas trazem em si o bom perfume da amizade. Antes de mais, aquela que Deus nutre por nós, mas também a nossa. Para o diácono, esta atitude não é um aspecto acessório das suas ações, mas uma dimensão substancial do seu ser. Realmente, ele é consagrado para ser, no ministério, 'escultor' e 'pintor' do rosto misericordioso do Pai, testemunha do mistério de Deus-Trindade.[...] Portanto, irmãos Diáconos, o trabalho gratuito que realizais, como expressão da vossa consagração à caridade de Cristo, é para vós o primeiro anúncio da Palavra, fonte de confiança e de alegria para aqueles que vos encontram. Acompanhai-o tanto quanto possível com um sorriso, sem reclamar e sem buscar reconhecimento [...]".

"E chegamos ao último ponto: a gratuidade como fonte de comunhão. Dar sem esperar nada em troca une e cria laços, porque exprime e alimenta um estar juntos que não tem outro fim senão o dom de si e o bem das pessoas. São Lourenço, vosso patrono, quando os seus acusadores lhe pediram para entregar os tesouros da Igreja, mostrou-lhes os pobres e disse: «Aqui estão os nossos tesouros!». É assim que se constrói a comunhão: dizendo ao irmão e à irmã, com palavras, mas sobretudo com ações concretas, tanto pessoalmente quanto em comunidade: 'tu és importante para nós', 'queremos-te bem', 'queremos que participes do nosso caminho e da nossa vida'. É isso que fazeis: maridos, pais e avós prontos, no serviço, a alargar as vossas famílias aos necessitados, onde quer que vivais."

Esse é o diácono que a nossa Escola quer oferecer ao mundo: uma verdadeira manifestação viva do Cristo-servo. Para qualquer um de nós, diáconos, um dia nosso coração ardeu de amor a Jesus Cristo. Fomos chamados ao ministério ordenado para se configurar a esse Cristo-servo. E é por isso que um coração aquecido pelo amor ao Senhor e do Senhor não fica indiferente e paralisado, mas se põe a caminho.

Nesse dia, o melhor presente para essa escola e para todos que por ela passaram são as orações dos irmãos. Por favor, rezem por nós, para que nosso serviço seja banhado de perdão desinteressado dos aplausos e promova a comunhão para todos, todos, todos.

terça-feira, 29 de abril de 2025

O nome de nossos óculos é Francisco (artigo do Diác. Eduardo Wanderley)


Diácono Eduardo Bráulio Wanderley
Paróquia São Camilo de Léllis - Conjunto Lagoa Nova I/Natal (RN)
Arquidiocese de Natal


O cardeal Bergoglio estava ali no conclave de 2013. Já era eminente entre os eminentes cardeais. Parafraseando George Orwell, todos os cardeais são iguais, mas alguns cardeais são mais iguais que os outros. Seu nome, entretanto, não era da mídia. Preocupado com a igreja, ele fez um discurso em uma das congregações gerais privativas dos cardeais que inflamou positivamente o coração dos seus irmãos. Disse que a igreja precisa escolher em ser autorreferencial, que gera a mundanidade espiritual, ou a mysterium lunae (mistério da lua), capaz de refletir a luz de Cristo em todos os lugares. Mais tarde, eleito, ele autorizou a publicação de seus manuscritos. E o que hoje precisamos?

Doze anos se passaram e a marca de Francisco, o papa simples, o papa humano, o papa humilde, o papa terno, está mais que nunca presente em nossos corações. Costumo dizer que a realidade última do homem nunca é a morte. Mesmo porque, apesar de não produzir mais com os mesmos meios que nós, ainda em nossa peregrinação terrena, ele permanece vivo em nossa memória e continua a influenciar nosso pensar.

O mundo é polivalente, tem vida própria, se movimenta, se move. Em 2007, em Aparecida, os bispos da América Latina e do Caribe, descreveram a fase histórica de nossos tempos. Diziam que estamos não apenas em uma “época de mudanças, mas em uma mudança de épocas”. De fato, são tantas as mudanças que nos perguntamos onde vamos parar, se é que vamos parar. Não estamos distantes de completar 20 anos dessa reunião de Aparecida e já passamos por dois pontificados. Se retroagirmos ao Concílio Vaticano II e nos dermos conta dos escritos de uma de suas constituições, Gaudium et Spes (Alegrias e esperanças), vamos ver que a instalação de uma cultura do descartável já está prestes a completar 60 anos. Cinco pontífices já se passaram desde então. Se formos mais rigorosos seremos ainda capazes de olhar os sinais anteriores, mas basta essas referências para entendermos que a sociedade ainda escorrega para acompanhar o ritmo atual da revolução eletrônica de alta escala. Nosso relógio social é mais lento.

Na orfandade humana gerada por um cronômetro que corre muito além do tempo nós corremos o risco do encantamento com o passado, lugar onde o cronômetro e tempo estavam síncronos (retrotopia). Corremos o risco de uma ansiedade generalizada por estarmos sempre aquém do bonde que queremos pegar e que nem sempre é alcançável. Estamos prontos?

E a Igreja, como deve se mover nesses tempos? É aqui que devemos considerar a eleição de um novo pontífice: na orfandade da sociedade anacrônica em relação ao seu próprio relógio. Precisamos nos ocupar desses pequeninos. É preciso olhar aqueles que não darão conta da revolução do tempo. É um olhar que precisa incluir. Há muitos lugares, e todos nós sentimos na pele, que cada um de nós não passa de um registro, um número de CPF, um número numa camisa de futebol do time do bairro. Passaremos sem deixar marcas. Nossa igreja precisa muito, e muito, de um olhar de acolhimento,onde não sejamos o fiel 152 da ficha do dízimo, mas sim Eduardo, João, Maria dos Anjos, Paula. Não tenho dúvidas que esse era o olhar de Francisco.

Nossos óculos atuais ainda têm o nome Francisco. E vejo que a sociedade ainda precisa desses óculos, mesmo que seu portador tenha um nome bem diferente.

Oremos: Suplicamos, ó Deus, com humildade: que vossa imensa piedade conceda à Sacrossanta Igreja Romana um pontífice; que seu zelo por nós possa ser agradável a Vós; que seja assíduo no governo da Igreja para a glória e reverência do Vosso Nome. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.

terça-feira, 8 de abril de 2025

A moeda e a sinodalidade (artigo do Diác. Eduardo Wanderley)


Diácono Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia São Camilo de Léllis - Conjunto Lagoa Nova I
Arquidiocese de Natal


Quanto vale uma moeda? Depende do país, do formato, do material, da cor. Depende do nervosismo do mercado, dos loucos no poder, das guerras. Uma lista se abre. Mas, para entendermos o valor de uma moeda e suas lições para a sinodalidade, vou me valer de um conto, não de réis, mas literário. Quanto vale uma moeda?

Um dia, uma moeda denário entrou em crise. A cara se dizia o bem e acusava a coroa de ser o mal. Também a coroa se dizia ser o bem e que o mal era mesmo a cara. Na troca de acusações, se diziam detentoras da verdade.

Uma moeda de denário valia uns 100 reais. A cara, se achando mais importante que a coroa, dizia valer uns 90 reais e o restante era o outra face. A coroa, ainda mais ousada, dizia valer 99 reais e que a outra face nem valia existir. Mas, já que estava ali, no máximo valeria 1 real.

Depois de acusações mútuas, decidiram que estar juntas só faria mal para cada uma das faces. Procuraram um exímio cirurgião de moedas que usando da mais alta tecnologia conseguiu, num arriscado processo, serrar a moeda ao meio, deixando a cara de um lado e a coroa de outro. Agora sim! Felicidade!

Cara foi para um lado e coroa foi para outro. Cada uma em seu mundo imaginário de que valia os mesmos 100 reais originais.

Quando chegaram aos balcões de troca de moedas levaram o maior "balde de água fria": moeda pela metade não tem valor algum!

Agora temos um longo caminho pela frente para tentar fazer com que os dois mundos imaginários de cara e de coroa sejam desconstruídos e que cara e coroa percebam que juntas valem exatamente 100 reais, mas separadas não têm valor algum.

Fim.

Uma moeda multifacetada, como é a Igreja, não pode se dar ao luxo de se dividir. Todas as faces do poliedro são definidoras de sua natureza, mas seu valor intrínseco se faz no coletivo e não no individual. O cristianismo precisa ser amálgama forte para resistir às tentações das separações, seja por ideologias, seja por teologias.

Esse conto das faces da moeda é um convite para nós pensarmos sinodalmente. Um caminho junto com outro, antes de ser uma ameaça é uma grande oportunidade de enriquecimento. Ninguém deixa de ser cara ou de ser coroa por estar ligado a outra face. Mas nossa força vem do coletivo caleidoscópico das cores. A Igreja sinodal, se é que essa expressão não seja um pleonasmo, requer de nós um entendimento que Deus quis salvar os homens como um povo (cf. LG no. 9). O que queremos, então? "Que sejam um é o que eu quero mais. Que sejam um é o que eu quero mais. O meu amor é o que os torna capazes. Sem medo algum, se amem mais. Sem medo algum, se amem mais. O meu Espírito é quem age e faz." Se você não conhece essa música, procure encontrar. É uma repetição que nos faz lembrar a vontade de Deus para nossa unidade.

Que o bom Deus nos ajude! Vem, Senhor, sarar as feridas de teu povo. Aplacar toda desunião que brota de corações dilacerados. Cura-nos, Senhor, do mal do individualismo. Não tardeis, Senhor, em nos socorrer! Amém!

quarta-feira, 2 de abril de 2025

A experiência da caverna (artigo do Diác. Eduardo Wanderley)


Diácono Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal
Arquidiocese de Natal



Em 2018 escrevi um artigo motivado pelo resgate histórico de 12 adolescentes e seu treinador num complexo de cavernas na Tailândia. Sete anos se passaram e vivemos ainda as mesma condições de esconderijo de nossos males interiores. Pensei em atualizar o texto, mas ele é tão atual quanto na data da escrita. Vamos revisitá-lo?

Depois de dias sem comer, sem luz, em condições extremas para a vida humana, 13 jovens foram resgatados de um complexo de cavernas na Tailândia. Louvado seja Deus!

Mas isso tudo me faz refletir sobre nossas cavernas. Sobre aquele espaço sem luz que teima em permanecer em nossos corações. É para lá que tantas vezes nós vamos quando há uma enxurrada em nossas vidas. Esse espaço escuro pode mesmo nos levar a óbito. É preciso desmitificar, quebrar barreiras e preconceitos. Entender que se trata de uma doença. Sim, estou falando da depressão, a caverna de nossas vidas modernas.

Sim, existe saída! Ela pode ser mais fácil, como um simples túnel para saída, ou pode ser mais difícil, com necessidade de resgate pelos melhores especialistas. Não importa: tem saída. Quando vemos jovens próximos relatar suas vidas nas cavernas de seus corações, nos dá uma sensação de que temos de fazer algo. Temos de nos mobilizar numa grande corrente de promoção da VIDA! Seu valor intrínseco e extrínseco. Temos que quebrar a ideia reinante de um individualismo doentio. Se aqueles meninos da Tailândia não estivessem em grupo, teriam menos forças para enfrentar a inospitalidade do local.

Meus amigos, vamos ser coerentes. Vamos deixar nossos conceitos de lado e vamos procurar ajuda quando necessário. Deixemos que os mergulhadores (pastores de alma, psicólogos, psiquiatras, profissionais da saúde, remédios et cetera) cheguem em nossas cavernas. Eles levam luz, alimento, oxigênio para os aflitos. A salvação vem sempre de Deus, mas quem somos nós para dizer que Ele não use os profissionais e os pastores para nos ajudar? Quem somos nós para escolher o método, o material da cura?

Hoje, peço a Deus o discernimento para tantos irmãos, principalmente os mais jovens, para que se deixem tocar pelo amor de Deus através das pessoas.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Servir sem se servir (artigo do Diác. Eduardo Wanderley)


Diácono Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal
Arquidiocese de Natal



Estamos no tempo da Quaresma, que é um tempo para ser vivido na mais profunda realidade do eu. Frequentemente nos perguntamos sobre quem somos afinal. O encontro do eu com o eu mesmo é um grande exercício. Podemos nos perguntar, então: como vivo esse tempo? Onde está o meu coração?

O pecado nos desfigura. Quanto mais nos aproximamos, em nossas atitudes, de uma figura mitológica, ideal, mais afundados no pecado parece estarmos. Viver um personagem é afastar-se do eu real, com todas as fragilidades humanas. Eu sou uma pessoa falível, insuficiente e que busca incessantemente acertar para ajudar na construção do reino de Deus. A praga do espetáculo, no que se refere à tendência de nos mostrarmos acabados e perfeitos, causa uma projeção tão alta que acabamos por falhar em tentar ser o que projetamos ser para os outros. O perfecionismo deve ficar restrito ao tamanho de minha capacidade e nunca a uma imagem inalcançável.

A esmola interior. O ato de ajudar o próximo, em suas necessidades mais básicas, é um chamado cristão para todos. A resposta a esse chamado pode ser muito positiva, como foi para o samaritano que decidiu sair do caminho, interromper o trajeto, para estar com o ferido. Não teve medo de se contaminar com o sangue, mas teve a ousadia de tocar o irmão caído. De fato, nos preceitos judaicos, o sangue poderia contaminar quem o tocasse. Mas, na beleza do texto bíblico do bom samaritano, podemos ver que a mesma mão que se contamina é a mão que cura. Esse gesto de curar o outro, oferecendo um pedaço de pão, uma tigela de feijão, um remédio e um colchão para dormir é parte de uma fraternidade universal que somos chamados a viver com intensidade na Quaresma. A esmola dada com o coração é a oferta mais preciosa aos olhos de Deus.

O jejum como exercício de fortalecimento. Você alguma vez já passou fome? Não digo por causa de uma dieta ou mesmo de um exame que lhe impeça de comer por um tempo, mas por não ter um pedaço de pão. Quem passa pela experiência sabe que a fome dói, maltrata o físico e o psíquico. Ao propor a antiga tradição de evitar comer, mesmo que em um nível controlado em nossos tempos, estamos olhando o exercício como fortalecedor da fé. Quando nossas capacidades se esgotam só nos resta a fé. Podemos fazer tantos gestos de jejum, inclusive o da língua, para falar menos; o de prazer, para não comermos algo especialmente apetitoso para nosso paladar; o do ter, para refrearmos o nosso consumismo exagerado, extremado. Mas a experiência do jejum de alimentos, quaisquer que forem, significa dizer: por amor a Ti, eu vou até as últimas consequências. Nunca deixa de ser um grande exercício espiritual.

A oração como carinho. A oração é essa constante relação que temos com Deus. Vivida em Espírito e Verdade é agradável a Deus. A oração é um meio de nos sentirmos acariciados por Deus e respondermos com grande ternura. Por vezes precisamos de um espaço sozinho, mas também precisamos, outras vezes, de um espaço coletivo orante. A oração é a expressão mais genuína do coração que ama.

Por fim, podemos pensar em uma síntese. Encontrei na frase "Servir sem se servir" um bom resumo. Para servir é preciso se sentir servo e para tal é preciso alimentar-se com o Senhor, na oração. Servir também invoca oferecer algo, nossa esmola exterior acompanhada de nossa esmola interior, nosso coração compassivo. E sem se servir é uma espécie de jejum em que se abdica de um mutualismo, não explora o outro, ama sem precisar de reciprocidade. Felizes exercícios quaresmais!

quarta-feira, 19 de março de 2025

José, patrono do silêncio (artigo do Diác. Eduardo Wanderley)


Diácono Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal
Arquidiocese de Natal


Há quase cinco anos, o papa Francisco publicava sua carta apostólica Patris Corde por ocasião do 150º aniversário da declaração de São José como padroeiro universal da Igreja. Hoje retomo essa carta para evidenciar um aspecto importante na vida de S. José: o silêncio. 

"O escritor polaco Jan Dobraczyński, no seu livro A Sombra do Pai, narrou a vida de São José em forma de romance. Com a sugestiva imagem da sombra, apresenta a figura de José, que é, para Jesus, a sombra na terra do Pai celeste: guarda-O, protege-O, segue os seus passos sem nunca se afastar d’Ele. [...] A felicidade de José não se situa na lógica do sacrifício de si mesmo, mas na lógica do dom de si mesmo. Naquele homem, nunca se nota frustração, mas apenas confiança. O seu silêncio persistente não inclui lamentações, mas sempre gestos concretos de confiança"  (no. 7).

A sombra projeta um objeto no chão, mas ela é silenciosa. Sua força está na forma, na luz, no lugar de descansar. Ao apresentar José como uma sombra silenciosa, vemos a qualidade de santo de um pai. Muitas vezes calado, mas com grandes atitudes de amor. Podemos mesmo identificar tantos pais em nossos dias que projetam essa sombra de Deus protetor, Deus guardião, Deus de amor. 

Sobre o silêncio, se Maria é a virgem do silêncio, que nos ensina a silenciar, também José, sem que uma palavra tenha sido retida pelo testemunho bíblico, é o guardião do silêncio. O silêncio que tanto nos falta nesse tempo tão barulhento. 

Rubem Alves tem um famoso texto que nos faz lembrar do quão desafiador é silenciar. E o silêncio é a alma da escuta. Nos diz o poeta: "Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o 

que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor... Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração... E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer,  que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade." (Trecho do texto Escutatória).

O silêncio da alma é a acolhida do outro e mesmo de Deus. Sem saber silenciar a alma, sem saber contemplar, sem saber ouvir a Deus, nos distanciamos do coração do Pai.

José, no seu silêncio e nos seus sonhos, dialogava com Deus. Que nós também aprendamos com ele a parar mais para ouvir o Pai e assim podermos formar uma sombra mais perfeita de Deus entre nós. 

Feliz solenidade de São José!

sexta-feira, 7 de março de 2025

A recepção do Sínodo: Também eu vos envio (artigo do Diác. Eduardo Wanderley)


Diácono Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal
Arquidiocese de Natal


Chegamos ao último texto dessa série que apresenta, em síntese, um pouco do documento final do Sínodo dos Bispos 2021-2024. Percorremos a parte teológica, a conversão das relações, as práticas de discernimento, de decisão e de transparência e o entrelaçamento de dons e vínculos que nos unem na Igreja. Nessa última parte tratamos da formação dos discípulos missionários.

"Na noite da Páscoa, Cristo entrega aos discípulos o dom messiânico da sua paz e os torna participantes da sua missão" (no. 140): Jesus disse de novo: "A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, eu também vos envio". Dito isso, soprou sobre eles e falou: "Recebei o Espírito Santo". (Jo 20,21-22). A Igreja é a continuação do Cristo na terra. Com Ele, somos também "co-missionados" para a construção do Reino de Deus. Portanto, a missão passa por mim, por você, por todos!

"Para que o santo Povo de Deus possa testemunhar a todos a alegria do Evangelho, crescendo na prática da sinodalidade, precisa de uma formação adequada: antes de tudo, à liberdade de filhos e filhas de Deus no seguimento de Jesus Cristo, contemplado na oração e reconhecido nos pobres" (no. 141). Eis a chave dessa última parte: formação. É preciso formar para a liberdade. 

"[...] é importante redescobrir como a celebração dominical da eucaristia forma os cristãos [...] Para muitos fiéis, a Eucaristia dominical é o único contato com a Igreja: cuidar da sua celebração do melhor modo, com particular atenção à homilia e à 'participação ativa' (SC 14) de todos, é decisivo para a sinodalidade" (no. 142). O Papa Francisco tem insistido numa melhor preparação para a homilia. Ela é parte importante da celebração, mas deve ser eficaz e eficiente. É preciso considerar o envolvimento do ministro ordenado com os demais membros da assembleia para além das fronteiras celebrativas, sob pena de falarmos línguas ininteligíveis para os ouvintes. Preparar bem as homilias, respeitando as condições intelectuais da comunidade, é uma chave para uma homilia envolvente e transformadora.

"Um dos pedidos que emergiu com maior força e de todas as partes durante o processo sinodal é que a formação seja integral, contínua e partilhada. [...] Deve, portanto, interpelar todas as dimensões da pessoa (intelectual, afetiva, relacional e espiritual) e incluir experiências concretas devidamente acompanhadas" (no. 143). Não se pode separar o intelectual do afetivo, nem do espiritual do ser humano. Tudo precisa ser considerado em um projeto de formação. Olhar esses eixos é reconhecer o homem como uma criação completa de Deus. Apesar dos destaques em algum desses eixos, é preciso garantir um estado de maturidade em todos. Só assim o povo de Deus estará bem formado.

"Entre as práticas formativas que podem receber novo impulso a partir da sinodalidade, é dada particular atenção à catequese para que, além de ser integrada nos itinerários da Iniciação Cristã, seja cada vez mais 'em saída' e voltada para o exterior" (no. 145. Nota: tradução minha, a partir da versão francesa, que parece capturar melhor o sentido original que está em italiano). Uma catequese voltada para o exterior. É um grande desafio fazer os catequisandos olharem o mundo com os olhos cristãos. Não se trata de apenas conhecer as doutrinas, mas sim de um grande esforço para aplicá-las no cotidiano.

Por fim, uma palavra sobre o capítulo de conclusão. "Ao viver o processo sinodal, tomamos nova consciência de que a salvação que será recebida e anunciada passa pelas relações. Ela é vivida e testemunhada em conjunto" (no. 154). " À Virgem Maria, que tem o esplêndido título de Odigitria [nota: expressão ortodoxa que é relacionada à Nossa Senhora da Guia], aquela que indica e guia o caminho, confiamos os resultados deste Sínodo. Ela, Mãe da Igreja, que no Cenáculo ajudou a comunidade nascente a se abrir à novidade do Pentecostes, nos ensine a ser um Povo de discípulos missionários que caminham juntos: uma Igreja sinodal" (no. 155). Amém, amém, amém!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

A recepção do Sínodo: uma pesca abundante (Artigo do Diác. Eduardo Wanderley)


Diácono Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal
Arquidiocese de Natal



Estamos chegando ao penúltimo texto dessa série que apresenta, em síntese, um pouco do documento final do Sínodo dos Bispos 2021-2024. Percorremos a parte teológica, a conversão das relações, as práticas de discernimento, de decisão e de transparência. Agora é hora de conhecermos a quarta parte, que nos convida a cultivarmos o entrelaçamento de dons e vínculos que nos unem na Igreja.

"As redes lançadas com a palavra do ressuscitado permitiram uma pesca abundante. Todos ajudaram a arrastar a rede, e Pedro tem um papel particular. No evangelho, a pesca é uma ação realizada em conjunto: cada um tem uma tarefa precisa, diferente mas coordenada com a dos outros" (no. 109). Interessante que, depois de conviver com Jesus, os Apóstolos voltam para o trabalho da pesca. Esse episódio nos lembra, fundamentalmente, que, com a palavra de Deus, a pesca se torna diferente. É a mesma ação de antes, mas com outra força. Cada um de nós, em nosso trabalho, também experimenta a mesma coisa. Depois de conhecer Jesus, não deixamos de ser vendedor, de ser carpinteiro, de ser engenheiro, de ser professor... mas passamos a fazer a mesma coisa com um coração diferente por causa da força do evangelho. Depois, também vemos a força dos vínculos. Quando cada um faz uma tarefa coordenada, há espaço para todos, todos, todos.

"A Igreja não pode ser compreendida sem estar enraizada em um território concreto, em um espaço e em um tempo no qual se forma uma experiência comum do encontro com Deus que salva" (no. 110). Nesse contexto é preciso ver o caleidoscópio que é a igreja. Sua beleza está na diversidade. E isso se apresenta tanto na forma do espaço como no tempo. É preciso ver os vínculos das igrejas locais. Mas é preciso, também, ver os vínculos do passado, do presente e do futuro. Cada tempo tem seus métodos para realizar a tarefa primordial: evangelizar. Evangelizar o hoje exige o método hodierno, sob pena de não passarmos de um museu que atrai pela beleza e não pelo coração.

"Todos experimentam o impacto provocado pelo encontro com a diversidade de proveniência geográfica, cultural e linguística, e são chamados a construir comunidades interculturais" (no. 112). Com a globalização, podemos experimentar belezas que estão em outras fronteiras. O 'catolicismo ortodoxo' por exemplo. Sua divina liturgia é imponente. Para uma interculturalidade, é preciso respeitar as diferentes raízes espirituais.

"A relação entre lugar e espaço sugere também uma reflexão sobre a Igreja enquanto 'casa'. [...] a imagem da casa evoca possibilidades de acolhimento, de hospitalidade e de inclusão." (no. 115). A casa é essa imagem de igreja que nos lembra que nossos filhos são acolhidos, mesmo quando cometem erros. Não significa deixar de ensiná-los a partir dos erros e simplesmente deixar para lá. Significa abraçar e mostrar que erros servem para acertos futuros. É pedagógico errar.

"Uma das principais articulações da Igreja local que a história nos transmitiu é a paróquia. [...] As mudanças na concepção e no modo de viver a relação com o território exigem que se repense a sua configuração" (no. 117). A plasticidade da paróquia está sendo posta à prova. A geografia territorial, no grande centro urbano, é apenas umas das inúmeras formas de vínculo de fiéis. Guardando-se a espiritualidade local, tudo mais deve ser pensado em forma de vínculos afetivos, de acolhimento, de estruturas variadas. De fato, "a Igreja em nível local e na sua unidade católica, propõe-se como uma rede de relações por meio da qual circula e se promove a profecia da cultura do encontro, da justiça social, da inclusão dos grupos marginais, da fraternidade entre os povos, do cuidado da casa comum" (no. 121). Eis as pistas do nosso trabalho de Evangelização aqui e agora.

É de se louvar o esforço para a implementação de Concílios Particulares (cf. no. 129). "Com efeito, a sinodalidade articula de modo sinfônico as dimensões comunitária (todos), colegial (alguns) e pessoal (um) das Igrejas particulares e de toda Igreja." (no. 130). O ponto de comunhão é sempre o ministério petrino. "Cum Petro et sub Petro" é a máxima de sempre. Sob o papa podemos todos viver a comunhão. Por isso, quem não está com o Papa está fora da Igreja por opção própria. Rezemos pelo santo padre, o papa Francisco.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A recepção do Sínodo: lançai a rede


Diácono Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal
Arquidiocese de Natal



A nossa série de artigos sobre o documento final do Sínodo dos Bispos chega, agora, à terceira parte do texto. Vimos os fundamentos teológicos na primeira parte. Encontramos, na segunda parte, os participantes da igreja sinodal: homem e mulher, Deus, as famílias, os grupos sociais, clero, etc. Agora, devemos olhar para os processos. Como viver processos de sinodalidade.

"A pesca não deu frutos e agora é hora de regressar à terra. Mas uma voz ressoa, com autoridade, convidando-os a fazer algo que os discípulos sozinhos não teriam feito, apontando uma possibilidade que seus olhos e mentes não conseguiam perceber: 'Lancem a rede do lado direito do barco e achareis'. No decorrer do processo sinodal, tentamos ouvir essa Voz e aceitar o que ela estava nos dizendo. Na oração e no diálogo fraterno, reconhecemos que o 'discernimento eclesial', 'o cuidado com os processos decisórios' e o 'compromisso com a prestação de contas e a avaliação do resultado das decisões tomadas' são práticas com as quais respondemos à Palavra que nos mostra os caminhos da missão" (no. 79). Nessa introdução, encontramos o norte dessa terceira parte.

O discernimento eclesial é muito desafiador, pois exige de nós o exercício da sabedoria evangélica. Tal exercício se reflete bem nas primeiras comunidades, já testemunhadas em Atos dos Apóstolos: "Decidimos, o Espirito Santo e nós" (At 15, 28). Como vemos, o discernimento eclesial é antes de tudo um ato espiritual. Não se trata de um método corporativo. O primado espiritual deve ser sempre lembrado quando precisamos decidir na Igreja. O sínodo encontrou na 'escuta espiritual' um método de discernimento que busca afastar as ideologias e deixar que o Espírito Santo ilumine as mentes e os caminhos.

Já o cuidado com os processos decisórios aborda o tríplice "nada sem": nada sem o bispo; nada sem o conselho dos presbíteros; e nada sem o consentimento do povo. (cf. Carta 14 de São Cipriano de Cartago). Está em relevo o papel da autoridade que é, antes de tudo, um exercício de comunhão. "[...] o exercício da autoridade não consiste na imposição de uma vontade arbitrária" (no. 91). A escuta é a palavra-chave. Escutar para entender. Escutar para se abrir ao diferente. Escutar para avançar. "A autoridade pastoral tem o dever de escutar aqueles que participam na consulta, e por conseguinte, não pode continuar a atuar como se não os tivesse escutado" (no. 91). Urge mecanismos de escuta ampla para que seja respeitado o senso do fiéis batizados.

Sobre a transparência, é muito importante demonstrações do que somos. Aprendi com um colega de gestão no Instituto Federal, Prof. Willys Abel Farkat, que "não basta ser honesto, é preciso se mostrar honesto". O no. 97 do documento final diz que "onde a Igreja goza de confiança, práticas de transparência, prestação de contas e avaliação ajudam a consolidá-la, e são um elemento ainda mais crítico onde a credibilidade da Igreja deve ser reconstruída". Os conselhos econômicos têm papel fundamental: "um esforço comunicativo que se revela um poderoso meio educativo em vista da mudança de cultura [...]" (no. 102).

Por fim, os organismos colegiados de participação são evidenciados: "Sínodo diocesano, Conselho presbiteral, Conselho Pastoral diocesano, Conselho pastoral paroquial, Conselho diocesano e paroquial para assuntos econômicos" (no. 103). Os bispos, juntos com o papa, propõem "que se dê maior destaque ao Sínodo diocesano e à Assembleia paroquial (NT. para as igrejas orientais) como órgãos de consulta regular da parte do bispo à porção do Povo de Deus que lhe foi confiada, como lugar de escuta, de oração e de discernimento, em particular quando se trata de escolhas relevantes para a vida e missão de uma Igreja local" (no. 108). E ainda, que os sínodos diocesanos "se reúnam com uma cadência regular não excessivamente rara" (no. 108).

Nossa igreja local, por vontade de nosso arcebispo, se prepara para seu primeiro sínodo. A sua realização se reveste ainda mais de importância quando olhamos para esse documento. Que o Espírito Santo nos conduza.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

A recepção do Sínodo: no barco, juntos (Artigo do Diác. Eduardo Wanderley)


Diácono Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal
Arquidiocese de Natal



Na semana passada, iniciamos um caminho para conhecermos o documento final do Sínodo dos Bispos. Nos debruçamos sobre a primeira parte, os fundamentos da sinodalidade, e, de forma particular, sobre a necessidade do cuidado dos vínculos (no 48). Hoje falamos sobre as pessoas, lembrando que no mar de Tiberíades, seguindo um chamado de Pedro, os Apóstolos se puseram a pescar. Hoje, o sucessor de Pedro nos convida a olhar para a barca e reconhecer quem está ao nosso lado.

Logo no início da segunda parte, intitulada NO BARCO, JUNTOS, lembramos da necessidade da conversão das relações: "com o Senhor; entre homens e mulheres; nas famílias; nas comunidades; entre todos os cristãos; entre grupos sociais; entre religiões; com a criação." (no. 50). Somos chamados a uma verdadeira "conversão relacional", isto é, uma revisão das nossas relações, seguida de uma ressignificação, à luz do evangelho, do eu-tu-nós.

Os bispos nos chamam a atenção para uma triste realidade: as guerras e conflitos armados. Mas também nos lembram que "igualmente letal é a convicção de que toda a criação, até mesmo as pessoas, pode ser explorada à vontade para fins lucrativos. Essa é a consequência das muitas e variadas barreiras que dividem as pessoas, mesmo nas comunidades cristãs, e limitam as possibilidades de alguns em comparação com aquelas desfrutadas por outros: desigualdades entre homens e mulheres, racismo, divisão de castas, discriminação de pessoas com deficiências, violação dos direitos de minorias de todos os tipos, falta de disposição para receber migrantes." (no. 54)

Depois desse quadro geral, o documento passa a destacar algumas particularidade. O no. 60, por exemplo, nos lembra que "homens e mulheres gozam de igual dignidade no Povo de Deus. No entanto, as mulheres continuam enfrentando obstáculos para obter um reconhecimento mais pleno dos seus carismas, da sua vocação e do seu lugar nos vários setores da vida da Igreja [...]". O diaconato feminino continua em estudo, ao mesmo tempo que basta olharmos para as nossas igrejas para percebermos que a diaconia, mesmo sem o sacramento da ordem, é abundante por parte das mulheres. Ainda se apela para que a pregação, a catequese, se abra aos testemunhos, ao contributo de mulheres "santas, teólogas e místicas" (no. 60).

Crianças, portadoras de grande potencial missionário; jovens, sensíveis aos valores da fraternidade e da partilha; pessoas com deficiência, tantas vezes promotoras ativas da evangelização; e as famílias, que são "protagonistas e não apenas destinatários da Pastoral Familiar" (no. 64) completam esse quadro de navegantes leigos (isto é, não ordenados) na barca de Pedro de nossos tempos.

Já para o ministério ordenado, também navegante nessa barca, somos chamados ao serviço da harmonia. Nada é mais belo que tratar com dignidade um servo. Somente algo é ainda mais bonito: o servo tratar com alegria o patrão. Todo ministro ordenado é servo do povo de Deus. Está inserido nesse povo com essa tarefa. Tem funções específicas na condução da barca: fazer com que todos (todos, todos) se sintam seguros.

Por fim, o documento trata dos ministérios não ordenados, sejam instituídos (leitor, acólito e catequistas na igreja latina), mas também os designados por um rito litúrgico como os ministros extraordinários da sagrada Comunhão ou mesmo os simplesmente reconhecidos. Clamam os bispos com o Papa por uma participação mais ampla dos leigos e leigas nos processos decisórios e nos discernimentos eclesiais (cf. no 77).

Tudo isso, meus irmãos e irmãs, requer de nós, antes de tudo uma escuta espiritual. Cada um de nós, de acordo com a bondade de Deus em nos dar carismas, faz parte dessa trama tissular que é a Igreja. Mãos a obra!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

A recepção do Sínodo: o coração da sinodalidade (Artigo do Diác. Eduardo Wanderley)


Diácono Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal
Arquidiocese de Natal



Nossa Arquidiocese está em vias de iniciar um grande Sínodo local. A comissão de preparação tem trabalhado para delinear a metodologia mais apropriada para fazermos todos, todos, todos, parte desse processo. Para tanto, seria muito bom trabalharmos a recepção do documento final do Sínodo dos Bispos. Você conhece esse documento do magistério papal?

Nas próximas semanas, eu gostaria de partilhar nesse blog de nossa Arquidiocese com alguns insights do documento. São cinco partes e a cada semana vamos olhando para uma delas. A primeira chama-se O CORAÇÃO DA SINODALIDADE.

Essa parte começa lembrando as palavra do Concílio sobre o povo Deus: "Aprouve a Deus santificar e salvar os homens não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituí-los num povo que o conhecesse na verdade e o servisse santamente" (LG, 9). Ora, um povo é muito mais que uma soma de cidadãos. Assim, também, a Igreja é muito mais que a soma dos batizados. Exige história, cultura, tempo e espaço para formação de um povo. Estamos todos interligados e não apenas uns com os outros contemporâneos, mas também somos imagem dos nossos antepassados e molde para os nossos descendentes.

Depois, o capítulo fala no senso da fé. Essa percepção sobrenatural que é inspirada pelo Espírito Santo e todo o povo de Deus, vinculado pelo batismo, tem, é que nos ajuda a passar de uma organização social para uma Igreja (no.s 16 e 44).

O documento ainda fala de ligação entre liturgia e sínodo. De fato, existe uma estreita ligação entre synaxis (encontro para celebração) e synodos (caminho conjunto). Em ambas se realiza a promessa de Jesus de estar presente onde dois ou mais estiverem reunidos em seu nome (no. 27).

Os bispos, com o Papa, também apresentam um desejo de uma Igreja mais próxima das pessoas e mais relacional, que seja casa e família de Deus (no. 28).

Mais adiante, o documento retoma uma frase da Caritas in Veritate: "De natureza espiritual, a criatura humana realiza-se nas relações interpessoais [...]. Não é isolando-se que o homem se valoriza a si mesmo, mas relacionando-se com os outros e com Deus" (no. 34).

Quanto trata da Espiritualidade sinodal, os bispos, junto com o Papa, dizem: "A renovação da Comunidade Cristã só é possível reconhecendo o primado da graça. Se falta a profundidade espiritual pessoal e comunitária, a sinodalidade se reduz a um expediente organizativo" (no. 44).

E a última seção dessa parte fala: "Praticado com humildade, o estilo sinodal pode fazer da Igreja uma voz profética no mundo de hoje" (no. 47).

Nos cabe perguntar para nos reconhecermos nesse processo: somos essa Igreja que nos convida ao CUIDADO DAS RELAÇÕES? Sejam as relações interpessoais, sejam institucionais, sejam com a terra onde vivemos, o quanto estamos dispostos a abdicar do nosso individualismo, do nosso eu isolado, em favor do nós? Uma Igreja é a soma de um mais um que não dá dois, mas três, quatro, trinta, sessenta, cem... cuidemos dos nossos laços!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Há ourives entre nós (Artigo do Diácono Eduardo Wanderley)


Diác. Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal
Arquidiocese de Natal


Na Escola Diaconal o dileto mons. Pedro Ferreira, meu professor de homilética, contou uma história, quem sabe uma estória, de um aviador coreano, para nos alertar sobre o cuidado com as palavras que proferimos. Quem de nós nunca falou uma frase, para um público grande ou pequeno, que logo depois avaliou ter sido infeliz?

Houve um tempo em que algumas pessoas, por sua formação, carregavam consigo um conjunto de informações muito especializadas. O médico, o advogado, o engenheiro, o padre, o delegado... Usavam essas informações e eram aplaudidos. Depois, percebendo que pequenos acréscimos pessoais não eram contestados, 'embelezavam' as informações com bijuterias. E não parou por aí. Talvez estejamos vivendo a sociedade do bijoux. O espetáculo precisa de plumas e paetês. Mas cuidado. Há ourives entre nós. Cada vez mais a sociedade da informação permite a distinção entre o ouro verdadeiro e a bijuteria.

Cada um de nós, cristão por causa de um encontro com Deus, porta uma joia. Ela é muito preciosa e um ourives logo a vê. Mas o velho hábito das bijoux não deixa que nos concentremos no verdadeiro tesouro. As massas continuam encantadas com o brilho das lantejoulas.

Como devemos agir? Com cuidado. Com uma reverência enorme pela palavra que portamos e postamos. Ela é libertadora. É nela que confiamos e ela basta. A sua força está em sua origem divina. Eu, como instrumento, não devo diminuir sua força ou mesclar minhas ideologias. Cuidado, cuidado e cuidado. Medir as palavras. Uma palavra mal dita é maldita!

Somente Jesus Cristo é a verdade. Quando nos colocamos a serviço de Deus, em qualquer pastoral, qualquer ministério, passamos a ser pessoas públicas e portadores de algo que não nos pertence e é muito maior que nós. É a essência que nos move. Fazer o que deve ser feito. Nas palavras da Sacrosancto Concilium: "Nas celebrações litúrgicas, limite-se cada um, ministro ou simples fiel, exercendo o seu ofício, a fazer tudo e só o que é de sua competência, segundo a natureza do rito e as leis litúrgicas"

Portanto, como na liturgia, a nossa vida cotidiana deve ser expressão do tesouro encontrado. A ousadia deve ser sempre obra do Espírito Santo em nós. Que o bom Deus não nos deixe cair na tentação da bijuteria. Amém.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

O odor do estábulo e o rei (Artigo do Diác. Eduardo Wanderley)

Diác. Eduardo Bráulio Wanderley Netto
Paróquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal

Arquidiocese de Natal


Toda família católica tem um presépio para o tempo do Natal. A inspiração de São Francisco ajuda a tornar presente aquela cena histórica. No centro está a manjedoura, trono escolhido pelo Pai para o nascimento de seu Filho. Mas o que era a manjedoura? Sua função, sua aparência, seu odor? A manjedoura era o lugar onde se depositava o alimento para os animais. Normalmente uma caixa em madeira ou pedra, quiçá encrustada em um rochedo. Se espera ter feno, palhas, enfim, alimento. E o odor? De certo de um estábulo. Não se pode projetar um odor de perfume. Eis o lugar do nascimento do rei. Nossa carência humana e nossa necessidade de autoafirmação criou manjedouras sofisticadas, em ouro, com odor de incenso e propriedades curativas de mirra. Um trono de um rei imaginário, mais que um lugar de comida para animais. Mas a realidade é outra.

E o que aprendemos com essa frustração de um povo que esperava um rei convencional em forma de um deus? Tantas lições podemos tirar dessa cena! Jesus nasceu na carne e na pobreza para que fosse tangível para toda humanidade. Ricos e pobres. Escravos e livres. Sua humanidade seria esquecida se tivesse nascido como um rei, em 'berço de ouro'. Jesus nasceu no lugar da comida, prenunciando que Ele será nosso alimento. E tantas outras inspirações.

Quero me dedicar agora ao odor do estábulo, marcado pelos dejetos dos animais. Também os nossos pecados vão nos desfigurando da imagem e semelhança de Deus e nos fazendo feder, por oposição ao perfume de santidade. E foi aí que Ele nasceu. Ele veio para essa gente fedida, suja e desfigurada pelo pecado para nos dar a salvação. Ele veio para os imperfeitos. Sua encarnação é perfume que cura e converte. Os lugares mais sujos, mais fedidos pelo pecado são transformados em verdadeiras essências raras quando se deixam tocar por Jesus. Enquanto a humanidade oferece ouro, incenso e mirra, Ele oferece a salvação. Que lindo contraste. O nosso melhor e o melhor de Deus se encontram nessa cena.

E nesse pensamento, quem são os cristãos? Os cristãos são vasos dessa essência de perfume e devem, no mundo marcado pela podridão do pecado, se deixar quebrar para que o odor de santidade superabunde, onde o pecado abundou. Eis o melhor Natal: o que se doa por completo para que todos tenham vida em santidade. Feliz Natal!

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Paroquialidade líquida

Por Diác. Eduardo Wanderley

Em 30 de dezembro de 1988, o Santo Papa João Paulo II publicou sua exortação apostólica Christifideles Laici. Nesse documento do magistério petrino se fala da Paróquia usando um conjunto de imagens que se aplicam. Embora o direito precise de algum balizamento geográfico, faz-se necessário mergulhar na nova paroquialidade, essa moldada na liquidez de nossos tempos. Então, o que melhor definiria uma paróquia hoje?

"É necessário que todos redescubramos, na fé, a verdadeira face da Paróquia, ou seja, o próprio 'mistério' da Igreja presente e operante nela: embora, por vezes, pobre em pessoas e em meios e outras vezes dispersa em territórios vastíssimos ou quase desaparecida no meio de bairros modernos populosos e caóticos, a Paróquia não é principalmente uma estrutura, um território, um edifício, mas é sobretudo 'a família de Deus, como uma fraternidade animada pelo espírito de unidade', é 'uma casa de família, fraterna e acolhedora', é a 'comunidade de fiéis'. Em definitivo, a Paróquia está fundada sobre uma realidade teológica, pois ela é uma comunidade eucarística. Isso significa que ela é uma comunidade idônea para celebrar a Eucaristia, na qual se situam a raiz viva do seu edificar-se e o vínculo sacramental do seu estar em plena comunhão com toda a Igreja. Essa idoneidade mergulha no fato de a Paróquia ser uma comunidade de fé e uma comunidade orgânica, isto é, constituída pelos ministros ordenados e pelos outros cristãos, na qual o pároco — que representa o Bispo diocesano — é o vínculo hierárquico com toda a Igreja particular." Eis a definição ampla que lemos em Christifideles Laici (26).

Para o papa Francisco, "A paróquia não é uma estrutura caduca; precisamente porque possui uma grande plasticidade, pode assumir formas muito diferentes que requerem a docilidade e a criatividade missionária do Pastor e da comunidade. Embora não seja certamente a única instituição evangelizadora, se for capaz de se reformar e adaptar constantemente, continuará a ser «a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas»" (EG, 28)

Já a liquidez é uma marca de nossos tempos. O grande pensador polonês Zygmunt Bauman anuncia, em seus best-sellers (Amor líquido, Modernidade líquida, Vida líquida etc), um tempo em que as estruturas perderam sua solidez. As antigas organizações sociais deram lugar à novas que não oferecem a mesma estabilidade, pois elas “decompõem-se mais rápido que o tempo que leva para moldá-las”. Instituições tradicionais e seus padrões de comportamento perderam a capacidade de moldar as rotinas individuais. Agora, tudo “se dissolve” no grande “viveiro de incertezas” que marca nossa modernidade. (Cf. 'Nossa “pastoral líquida” e a “nova paróquia” que queremos' de Nicolau João Bakker, svd)

A organização institucional da Igreja que, por vezes, infelizemente, se confunde com ela, também está estruturada conforme um padrão estável que agora se choca com a nova realidade da liquidez social. A paróquia, que pelo direito canônico é uma porção geográfica de uma diocese, está sob essa nova mentalidade social, portanto sujeita aos efeitos de uma liquidez na própria pertença. O grande centro urbano oferece uma miríade de opções que vão aos poucos oferecendo serviços, como que se pudéssemos montar um próprio 'combo de fé' para a vida de cada cristão. Há muito a paróquia urbana deixou de ser uma área geográfica, mas agora o fenômeno é ainda mais contundente: sequer conseguimos formar uma comunidade regular de fé pela hiperfragmentação dos gostos individuais. Alguém prefere uma missa aqui, mas a confissão ali e a pastoral acolá. Há quem participe de encontros em diversas paróquias. Em resumo, mesmo o carisma do pároco e de seus colaboradores clérigos não são mais suficientes para costurar uma colcha com todos ou muitos paroquianos, nas diveras atividades de uma paroquia. Será que estamos vivendo o tempo da transparoquialidade?

O desafio agora é como construir uma comunidade de fé mais estável, que se reconheça enquanto comunidade, nessa nova realidade. Podemos, por instinto, rejeitar e condenar atitudes que desconstruam a paroquialidade, esperando minar os "desertores". Não se deve esperar muito desses rótulos e métodos. Não têm produzido efeitos em nossos tempos. Mas, um olhar mais criterioso nos leva a considerar a necessidade de maior unidade nas ações para que, ao menos, essa necessidade do diferente, que gera a liquidez na pertença, seja diminuída. Não se trata de enrigecer os modelos, mas não permitir que a "criatividade desenfreada" gere uma disputa por fiéis. Seria um descalabro. Todos pertencemos à Igreja de Cristo que se realiza/manisfesta em uma comunidade.

Sinto que esse desejo de dar unidade, mesmo na diversidade, só pode se tornar realidade contando com a humildade dos clérigos e com a criação de diretrizes que se interrelacionam sistematicamente. São os sonhados diretórios que a Igreja em Natal, por inspiração de seu Pastor, ousa construir em sínodo. Nós todos devemos alegremente pensar na Igreja que somos e sonhar com a Igreja que seremos: mais convertida, mais mística, mais eucarística. Que assim seja.







Diácono Eduardo Bráulio Wanderley NettoParóquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal

Arquidiocese de Natal

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Complacência

Por Diác. Eduardo Wanderley

Há alguns anos participei de uma conferência sobre a dignidade feminina e um dos palestrantes falou que existem raízes do preconceito contra as mulheres na cultura judaico-cristã. Citou ainda o Islã como fonte de preconceito contra as mulheres. Contrapus mostrando alguns dados que não se coadunam com a tese. Entretanto, mais do que uma simples discussão acadêmica com pontos de vista distintos, eu fiquei refletindo sobre o preconceito. Será que ainda o vivemos?

Talvez nossa organização histórico-social tenha sido determinante para um modelo em que o preconceito esteja tão presente entre nós. Mas a questão é: o que nos difere também nos enriquece ou nos empobrece? Aqui é preciso olhar o preconceito como um todo. Seus tipos são inúmeros. Preconceito com os negros, com os gordos, com os pobres, com os estrangeiros, com as mulheres, com os religiosos, com deficientes e outros tantos. Parece que esquecemos que todos somos irmãos. Mesmo dentro da igreja o preconceito pode ser erva daninha que destrói a dignidade dos grupos. As clássicas fronteiras clero-povo, interclericais (diáconos-presbíteros-bispos), ideo-teológicas etc. Todas podem facilmente ultrapassar a fronteira da identidade e se tornar preconceito. Também em nossas fileiras ministeriais das paróquias podemos nos tornar preconceituosos achando que um grupo é mais digno que outro. Que uma pastoral é superior às demais.

E qual seria o antídoto para nossos preconceitos? Só posso pensar em uma profunda e radical transformação pessoal, que para nós, católicos, é um processo de conversão que precisa vir à tona, não somente no âmbito pessoal, mas também institucional. Olhar o outro como parte integrante de um corpo. Nas palavras do Papa Francisco, como partes de um poliedro. Acrescento que se trata de um complexo poliedro irregular, cujas faces são diferentes, mas mesmo assim, se justapõem e formam um objeto. É esse o caminho. Enxergar o diferente não como inimigo, mas como uma outra pessoa de mesma dignidade.

A vida de Cristo trouxe consigo uma corrente de preconceito. Como seria possível um Deus se fazer carne e, ainda mais, um Deus se fazer humano e pobre, muito pobre? Como poderia vir algo de bom de Nazaré? Como poderia um sumo sacerdote ser da descendência de Daví? Como pode um irmão não ter o mesmo sangue? E a resposta de Jesus foi sempre: "quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (Cf Mt 12, 50).

Resta-nos perguntar, ou mais precisamente, nos auto-perguntar, se temos alguma identidade que gera uma divisão hierárquica, onde meu grupo é superior ao outro. E também é preciso questionar nossa razão sobre a totalidade dos preconceitos. No testemunho inicial desse texto, para mim restou claro que o combate do preconceito com as mulheres se deu usando uma tese que colocava uma culpa na história religiosa. Assim, parece mais uma mudança de preconceito e não sua extinção completa. A extensão de nossa conversão não pode abarcar apenas um grupo, mas a totalidade das relações que eu, ser humano, imagem e semelhança de Deus, mantenho com o próximo, com o outro. Que, ao enxergarmos a manjedoura de todos os presépios que apresentam a cena do nascimento na carne do menino Jesus, nós possamos pedir a graça de sermos complacentes, verdadeiros irmãos por natureza.






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quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

O advento, epifania divina, manifestação humana

Por Diác. Eduardo Wanderley

A época do Natal é um tempo em que vivemos das alegrias, dos presentes, das confraternizações. Desejamos um feliz Natal, ceiamos juntos. Enfim, é um momento familiar. Em meio a essas alegrias, o nosso religioso sempre busca um sentido transcendente. Mas o que o Natal significa mesmo?

A grande manifestação de Deus para nós cristãos é o nascimento na carne de Jesus Cristo. Essa verdadeira Epifania que nos oferece muito mais que um momento celebrativo. O amor de Deus por suas criaturas atinge seu ápice em Jesus Cristo. Nele passamos a nos irmanar. Um Deus tão pequeno e tão grande! Mistério.

O Natal, que não significa apenas celebrar, mas entrar no mistério, não pode ser vivido sem estarmos devidamente preparados. Por isso o tempo do Advento é o caminho dessa manifestação.

O tempo que deve ser vivido em família. O tempo que nos faz montar o presépio. O tempo que nos traz a árvore de Natal com suas luzes encantadoras. O tempo da coroa do advento.

Em nossas casas, como nos preparamos para o Natal? Que manifestação humana nos acompanha? Em sua casa, na minha, como está a decoração? Que sinais de esperança ela nos leva a ter? O tempo é para isso por primeiro, para a manifestação da esperança. Os sinais devem nos acompanhar nessa caminhada. Sem eles, viveremos apenas mais um Natal.

Os gestos concretos desse tempo devem ser testemunhas de nossa esperança para um mundo melhor, para nossa utopia, para nossos sonhos. Sem utopias nos maquinizamos. Que a manifestação do divino se torne a manifestação humana, com a concretude das testemunhas de um grande amor. Feliz Advento!








Diácono Eduardo Bráulio Wanderley NettoParóquia de São Camilo de Léllis – Lagoa Nova – Natal

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