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quarta-feira, 26 de março de 2025

O cartaz da CF 2025 e nosso espírito predador (artigo do Diác. Zé Bezerra)


Diácono José Bezerra de Araújo
Assistente Eclesiástico da Pastoral da Comunicação
Arquidiocese de Natal


Anualmente, a Igreja faz um convite à sociedade brasileira para realizar uma reflexão mais profunda sobre o sentido da vida, através da Campanha da Fraternidade 2025. Neste ano, mais uma vez, convida os brasileiros a refletirem sobre seu destino final. Sim, as criaturas todas fazem uma “caminhada” antes de chegar ao destino final. Com o ser humano não é diferente. Ele faz esta caminhada desde o início da Obra da Criação. A Terra em que se vive é o “Paraíso” no qual Deus quis que o ser humano habitasse, em harmonia com as demais criaturas e elementos da natureza. O refrão do hino da CF 2025 diz que “ao entregar o Paraíso ao ser humano, Deus contemplou sua beleza e seus dons (...) e viu que tudo era muito bom”(CF 2025).

É interessante, também, contemplar os elementos do cartaz, que traz ao centro as imagens de São Francisco de Assis e da cruz. Todos os outros elementos estão relacionados com o ser e agir da criatura humana neste “paraíso” atual que Deus, na origem, criou e entregou às criaturas, e que o homem o modificou, às vezes até “desfigurando” a obra criada. Apenas refletindo o significado dos elementos do cartaz, já dá pra perceber várias situações da obra criada por Deus e “modificada” pelo agir humano.

Na descrição do cartaz, a imagem de “São Francisco de Assis representa o homem novo que viveu a experiência com o amor de Deus, em Jesus crucificado, e reconciliou-se com Ele, com os irmãos e com toda criação. “A Cruz é um elemento importante na espiritualidade quaresmal e franciscana”. (...) “Ela recorda a experiência dos irmãos de Assis com o crucifixo da Igreja de São Damião, em Assis, na Itália, onde Francisco ouviu o próprio Cristo que falava com ele e o enviava para reconstruir a sua Igreja”(Cartaz da CF 2025).

Hoje, qual é a experiência que temos nesse encontro nosso com Jesus na Sagrada Eucaristia, ou nos elementos vivos da natureza – a água do rio, o mar, as nascentes, as matas e florestas, as aves, os peixes, animais selvagens que habitam as florestas? Vemos, realmente, Jesus presente na Obra da Criação que Deus nos entregou para cuidarmos dela? Ou será que estamos apenas nos “aproveitando” e extraindo ao máximo os recursos que Deus nos deu, porque entendemos que trais recursos são inesgotáveis? Ora, até mesmo um dos elementos essenciais à vida, a água, o ser humano está poluindo com seu modo irresponsável de viver!

No cartaz, a natureza que Deus colocou à disposição dos seres criados aparecem na “araucária, no ipê-amarelo, no igarapé, no mandacaru, na onça-pintada e nas araras canindés”. Tais elementos “representam a fauna e a flora brasileiras em toda sua exuberância que, ao invés de serem exploradas de forma predatória, precisam ser cuidadas pelo ser humano, chamado por Deus a ser o guarda e cuidador de toda a criação”(Cartaz da CF 2025).

E, ao fundo, o cartaz mostra o resultado do agir da criatura humana em meio à obra criada – a cidade. “Os prédios e favelas refletem um Brasil cada dia mais urbano, onde se aglomeram verdadeiras multidões em um estilo distante da natureza e altamente prejudicial à vida. Cada um de nós, seres humanos, o campo, a cidade, os animais a vegetação e as águas fomos criados para ser, com a nossa vida, um verdadeiro louvor das criaturas ao bom Deus”(descrição do cartaz CF 2025).

Se cada criatura humana refletir, com honestidade, lucidez e caráter de Criatura de Deus os elementos do Cartaz da CF 2025, chegará à conclusão de que devemos sim, com urgência, modificar o estilo de vida predador que muitos de nós adotamos diante da Obra Criada. Pense, reflita e, ao menos, tente mudar, se o seu estilo de vida é predador!

quinta-feira, 13 de março de 2025

O futuro funeral das criaturas (artigo do Diác. Zé Bezerra)


Diácono José Bezerra de Araújo
Assistente Eclesiástico da Pastoral da Comunicação
Arquidiocese de Natal



No princípio, o Senhor Deus criou o homem e a mulher, abençoou-os e disse: “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a Terra e submetei-a”(cf. Gn 1,26-28); em seguida contemplou a obra criada “e viu que tudo era muito bom”(Gn 1,31). Pois bem, este homem, obra da criação divina, vem degradando incessante e irresponsavelmente a obra do Criador que, ao contemplá-la, definiu-a como “muito boa”. Tudo o que Deus criou e colocou à disposição do homem, também por ele criado, vem sendo depredada, não pelas criaturas irracionais, mas pelo ser racional.

Esta tem sido a razão pela qual a Igreja Católica no Brasil tem dedicado várias Campanhas da Fraternidade em defesa do meio ambiente. Afinal, é neste meio ambiente que o ser humano foi colocado e convidado por Deus a viver, cuidar e preservar, para dele usufruir e se alimentar. “O Senhor Deus fez brotar da terra toda sorte de árvores de aspecto agradável, e de frutos bons para comer”(Gn2,9). Mas a criatura humana desobedeceu ao Criador e ainda hoje continua depredando o ambiente que Deus lhe concedeu para nele morar e dele colher “os frutos” para seu alimento.

Por isso, neste ano, mais uma vez, a Igreja dedica este tempo a mais uma campanha em favor do meio ambiente que Deus doou às criaturas. As criaturas humanas, de quaisquer crenças, são convidadas a refletir sobre a “Fraternidade e Ecologia Integral”. Afinal, todos são “guardiões da criação”(CF2025, pág. 5). Por esta razão, “Promover, em espírito quaresmal e em tempos de urgente crise socioambiental, um processo de conversão, ouvindo o grito dos pobres e da Terra” (CF2025, pag. 7), é dever de cada ser humano.

O segundo objetivo específico da CF2025 propõe à Igreja, aos cristãos e aos homens e mulheres de boa vontade “denunciar os males que o modo de vida atual impõe ao Planeta”, gerando “uma complexa crise socioambiental à nossa “Casa Comum”(CF2025, pág. 7). Sem perceber, muitos dos seres humanos, principalmente os gananciosos, entre os quais estão alguns do agronegócio e exploradores ambientais, estão contribuindo para uma futura autodestruição da criação. As últimas e muitas catástrofes, inclusive no Brasil, “falam” alto, mas poucos “ouvem” esse “grito da Terra”.

A ganância pelo ter vem agravando esta situação. Recentemente vi uma charge muito interessante e que escancara exatamente este caminho da autodestruição. Era a figura de um ser humano conduzindo um caminhão carregado com toras de madeiras, e uma procissão de animais selvagens logo atrás, com que cabisbaixos, iluminada por apenas uma frase: “O funeral das árvores”. Pois bem, pode-se acrescentar que também se trata do futuro funeral dos seres vivos – árvores, animais e nós, os seres humanos. Engana-se quem acredita que os biomas – a Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, entre outros – dispõem de recursos inesgotáveis.

Para muitos dos que só querem acumular riquezas e lucrar explorando a Mãe Terra, essas campanhas são apenas centelhas alarmantes de pessoas que querem barrar o “progresso”. Mas, que progresso pode haver com a destruição do meio ambiente? Nenhum! Existe uma ciência chamada Ecologia – “parte da Biologia que se preocupa com o estudo das relações estabelecidas entre os seres vivos e destes com o meio ambiente em que vivem” – e que compreende, ao menos, três dimensões: Ciência, prática e nova mentalidade ou paradigma(CF2025, pág. 17). Há, pois, Ciência nos tratados sobre os temas das Campanhas da Fraternidade. Portanto, não seja um incrédulo ou “ateu ecológico”. Destruir o meio ambiente é o mesmo que cavar uma sepultura e iniciar a caminhada do próprio funeral e dos demais seres vivos, ainda em vida!

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Os mais fortes talvez cheguem a oitenta


Diácono José Bezerra de Araújo
Assistente Eclesiástico da Pastoral da Comunicação
Arquidiocese de Natal



Creio que você conhece a música de Gonzaguinha em que ele se pergunta o que é a vida. “E a vida, e a vida o que é, diga lá meu irmão...”. Este é um dos primeiros versos da música. Mas, de fato, nós, ao longo de nossa vida, fazemo-nos esta pergunta? Ou, pelo menos, sobre qual é o propósito desta vida que Deus nos concede para vive-la, dia após dia, mês após mês, ano após ano? Quantos anos pode durar nossa vida? O salmista, meditando sobre a Palavra de Deus, afirma: “Reduzis o homem à poeira, e dizeis: Filhos dos homens, retornai ao pó, porque mil anos, diante de vós, são como o dia de ontem que passou, como a vigília da noite”(Sl 89,3-4).

Ora, se a vida do ser humano é tão breve, diante da grandeza de Deus e de toda a abra da criação, mas também tão importante para o Criador e as demais criaturas, por que tanta gente gasta seu tempo prejudicando a própria vida e a vida de outras pessoas? Por exemplo, qual a razão das guerras, que destroem não apenas bens materiais de ambos os lados, mas também a vidas de homens, mulheres, jovens e crianças? Atualmente, as mais destacadas guerras por este mundo afora são a da Rússia contra a Croácia e a da Faixa de Gaza... Quantas vidas já foram destroçadas? Provavelmente não há estatística, porque, nestes casos, o que menos importa é a vida humana...

Meditando sobre a brevidade desta vida que Deus nos concede, o salmista compara a vida humana com “o dia de ontem que já passou, com a vigília da noite. ... são como um sonho da manhã, como a erva que viceja de manhã, mas à tarde é cortada e logo seca”(cf. Sl 89,5-6). Mais adiante reflete sobre a vida que leva e se reconhece como um errante diante de Deus, quando afirma: “Colocastes diante de vós as nossas culpas, e nossos pecados ocultos à vista de vossos olhos. Ante vossa ira passaram todos os nossos dias. Nossos anos se dissipam como um sopro. Setenta anos pode durar a nossa vida; os mais fortes talvez cheguem a oitenta. A maior parte é sofrimento e vaidade, porque o tempo passa depressa e desaparecemos”(Sl. 89,8-10).

O profeta Isaias também faz uma reflexão sobre a vida passageira que Deus concedeu à criatura humana. “É necessário que eu me vá no apogeu de minha vida e de meus dias. Para a mansão triste dos mortos descerei, sem viver o que me resta de meus anos. (...) Qual tecelão, eu ia tecendo a minha vida, mas agora foi cortada a sua trama”(cf, Is 38,10-12). Ora, se a vida humana é tão breve diante da grandiosidade de Deus Criador, por que a criatura humana pratica tantos atos que contribuem para reduzir sua própria vida e a dos demais seres vivos – fauna e flora – e o habitat natural de todos os viventes?

Parece uma atitude irracional, quando o ser humano é a única criatura de Deus dotada da capacidade de pensar, de raciocinar e de agir conscientemente nas suas tomadas de decisão. Mas, ao mesmo tempo, por mais estranho que possa parecer, também é capaz de agir friamente na prática do mal contra outra criatura humana e, às vezes, até contra si mesmo. Por exemplo, sabe que a ingestão de drogas prejudica a saúde física, mental e até a convivência social. Mesmo assim, ingere drogas...

Devemos nos lembrar sempre que tudo nesta vida tem seus limites. O meu e o seu limite terminam quando interferem na vida de outras pessoas, prejudicando-as. Então, neste período carnavalesco, policie-se e jamais extrapole os seus limites, seja para consigo mesmo, seja para com as demais pessoas. Preserve a vida que Deus lhe deu. O profeta Izaias reconhece a presença de Deus na sua vida, quando diz: “... vós livraste minha vida do sepulcro e lançastes para trás os meus pecados”(Is. 38,17). Preservemos a vida. Ela é bela!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Festejar ou repousar: eis a questão (Artigo do Diác. Zé Bezerra)


Diácono José Bezerra de Araújo
Assistente Eclesiástico da Pastoral da Comunicação
Arquidiocese de Natal



Aproxima-se o período do carnaval, que tem origem na “antiguidade” e é definido como a “festa profana” que precede o Tempo da Quaresma. Corresponde, portanto, aos três dias antes da Quarta-feira de Cinzas”. Certamente há quem se pergunte se é pecado ou não “brincar o carnaval”, ou seja, participar dos festejos carnavalescos. A resposta fica com a consciência de cada pessoa. Os exageros, quebrando as regras da convivência comunitária e da moral, certamente se enquadram no que se classifica como pecado, ou seja, a violação dos preceitos humanos, religiosos e cristãos.

Muitas pessoas “caem na folia”, brincam os três dias de carnaval, esbanjando sua alegria, saúde e disposição física. Outras, no entanto, escolhem o período para se recolher em ambientes silenciosos, longe da barulhenta folia carnavalesca. Outras, ainda, preferem lugares tranquilos, mas convivendo com amigos, divertindo-se à sua maneira, porém bem distantes dos desfiles e celebrações desta festa que muitos chamam de profana.

Mas o que diz a Bíblia a respeito desta festa que precede o período quaresmal desde a antiguidade? Na Carta aos Gálatas há advertências de São Paulo quanto às “orgias” ou “festas barulhentas”. Ele adverte que “as obras da carne são fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeira, orgias e coisas semelhantes”(cf. Gl 5,19-21). As palavras de São Paulo são advertência quanto às oportunidades que as orgias favorecem para a devassidão, que é a violação de direitos e preceito religioso, e não o fato de brincar e se divertir no período carnavalesco.

Por sua vez, na primeira Carta de São Pedro, há esta advertência. “Baste-vos que no tempo passado tenhais vivido segundo os caprichos dos pagãos, em luxúrias, concupiscências, embriaguez, orgias, bebedeiras e criminosas idolatrias”. Certamente, no período carnavalesco aparecem as oportunidades para estas práticas.

Os que renunciam à devassidão mundana ganham a graça de Deus, como está escrito na Carta a Tito. “Manifestou-se, com efeito, a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens. Veio para nos ensinar a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver neste mundo toda sobriedade, justiça e piedade, na expectativa da nossa esperança feliz, a aparição gloriosa de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo...(cf. Tt 2,11-13).

Em outras palavras, participar das festas com sobriedade, alegria, respeito aos preceitos divinos e sociais, às demais pessoas e aos costumes sociais sadios não fere os princípios cristãos. O que fere são os exageros, aquilo que extrapola social e religiosamente os limites impostos pelas leis divinas e humanas. Então, depois da festa social, você também poderá participar das festas religiosas pós carnaval, que começam na Quarta-Feira de Cinzas.

Contudo, se preferir, busque lugares e grupos de pessoas que se recolhem em comunidades, ou na casa de amigos na zona rural, para curtir a Natureza. Neste período, no Semiárido, a zona rural oferece um clima gostoso com a chegada das chuvas, terra molhada e mato verde com certeza, amenizando a temperatura. Pode ser um tempo para repor as energias, repousar a mente e o corpo dos estresses do trabalho, do alvoroço das cidades barulhentas e poluídas, e apreciar o canto dos pássaros e a exuberância das plantas nativas, como os cactos, as juremas, os velames, as catingueiras, os juazeiros e os pereiros verdes e floridos. São maravilhas que Deus oferece através da natureza. Mas, com certeza, a escolha é sua!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

O falso moralismo e a caridade (Artigo do Diác. Zé Bezerra)


Diácono José Bezerra de Araújo
Assistente Eclesiástico da Pastoral da Comunicação
Arquidiocese de Natal



Nestes últimos dias, vi uma postagem numa das muitas redes sociais sobre uma pergunta que alguém fez a Dom Hélder Câmara e a resposta dele. A pergunta era sobre o que ele achava da então moda do “topless”. A resposta de Dom Helder foi curta e grossa, mas também categórica: “Meu filho, eu me preocupo com quem não tem roupa para usar, mas com quem tem para tirar, não me preocupo”. Aquele que fez a pergunta a Dom Hélder certamente desconhecia o trecho do evangelho em que Jesus afirma – “eu estava nu e me vestistes”(Mt 25,36). Essa era a preocupação de Dom Hélder.

O falso moralismo, creio eu, é uma das muitas faces perversas, senão cínica, da humanidade, desde o tempo em que veio Jesus e conviveu com os povos de sua época. A resposta de Dom Hélder está relacionada ao Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus (25,31-46). Neste trecho do Evangelho, Mateus descreve o que Jesus ensinou aos povos para que possam alcançar a salvação futura, no Juízo Final, e serve de lição até hoje para toda humanidade. Este trecho do Evangelho ensina o caminho e a prática da caridade para com os desvalidos e é “estrada de salvação” de cada criatura humana que assume os ensinamentos de Jesus.

Atualmente, os falsos moralistas não questionam mais ninguém sobre o comportamento de muitas pessoas a respeito dos modelitos de trajes e do atual modismo, em praticamente todos os ambientes, principalmente durante os chamados “mega-shows” de tantas bandas que percorrem os quatro cantos deste País, tocando músicas(?) ao som de tantans, guitarras e outros instrumentos barulhentos e ensurdecedores, enquanto algumas mulheres seminuas rebolam suas cadeiras em cima de um palco, com movimentos sensuais, e a turba se diverte lá embaixo, ingerindo bebidas alcoólicas e até drogas. Tudo é visto como algo mais normal neste mundão de Deus, nos tempos atuais.

E, é claro, essas bandas e seus componentes arrecadam milhões de Reais em cada show que realizam. E já que se fala em moralismo, cabe a pergunta que também se enquadra no contexto: Essas bandas recolhem o devido imposto ao poder Público? Afinal, a fonte de renda do Poder Executivo – federal, estadual e municipal – é o imposto devido e pago pelos cidadãos, em função de suas atividades e bens móveis e imóveis. Ou será que as ditas “bandas” não se enquadram nas regras fiscais às quais os cidadãos estão sujeitos?

Talvez muitos sejamos como os fariseus, que sempre tentavam fazer pegadinhas com Jesus, para ver se ele caía em alguma contradição. Nos relatos de Mateus encontramos esta passagem em que os fariseus, com a intensão de apanhar Jesus em alguma contradição, questionam o Mestre sobre se é permitido ou não pagar o imposto ao imperador (cf. Mt 22,16-17). Jesus encara os fariseus, qualifica-os de hipócritas e, no final, responde – “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”(Cf. Mt 22,21).

Cabe aos cristãos e homens de boa vontade serem fiéis ao Evangelho de Jesus Cristo e praticar a caridade para com os desvalidos – os sem roupa, sem teto, sem comida – porque, no Juízo Final, cada um de nós será cobrado a esse respeito. “Naquele dia” essa cobrança será feita, e se a resposta for a correta, se ouvirá o convite: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo(...)” Mt.25,34.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Não à cultura do descarte

Por Diác. Zé Bezerra

O Papa Francisco, num encontro com integrantes da Associação Italiana contra as Leucemias, Linfomas e Mieloma, fez uma afirmação que deveria ser o “mote” de vida de todos os cristãos e todas as pessoas de boa vontade. O Santo Padre afirmou que “As pessoas que trazem um pouco de luz aos doentes são ‘doadores’. A lógica da doação é o principal antídoto para a cultura do descarte. Toda vez que alguém doa, a cultura do descarte é enfraquecida”. A entidade, que comemora 55 anos de fundação, além de financiar a pesquisa, oferece acolhimento a pacientes e familiares de pessoas atingidas pelas leucemias, linfomas e mieloma.

Imagine-se você como paciente de alguma enfermidade, tendo necessidade de se submeter a exames, tratamento especializado de longa duração e não dispor de recursos para tais procedimentos e nem de pessoas para acompanhá-lo. Só quem já viveu este verdadeiro pesadelo na vida sabe o valor da ajuda de alguém. O Papa Francisco, assim como muitos que já passaram por situações como essa, sabe o real valor de tais ajudas e a alegria de saber que tem alguém que se dispôs a ajudar. Quem se dispõe a ajudar alguém é uma pessoa feliz, como está escrito nos Atos dos Apóstolos: “Em tudo vos tenho mostrado que assim, trabalhando, convém acudir os fracos e se lembrar das palavras do Senhor Jesus, porquanto Ele mesmo disse: é maior felicidade dar que receber”(At 20,35).

O Santo Padre destacou que ajudar “é um testemunho de solidariedade e proximidade, ainda mais importante em um mundo marcado pelo individualismo”. Certamente Francisco se referia àquela conversa do doutor da lei com Jesus, quando questionado sobre quem é o seu próximo. Jesus, então, conta a parábola do bom samaritano. Depois de ouvir o doutor da lei de que cumpria todos os preceitos, Jesus manda que ele “vá e faça o mesmo”(Jo. 20,25-37).

No encontro com a Associação, o Santo Padre sublinhou três palavras. A primeira é iluminar porque “De fato, a doença muitas vezes mergulha a pessoa e sua família na escuridão da dor e da angústia, gerando solidão e fechamento”; a segunda é dom, “porque essas pessoas que trazem um pouco de luz são os doadores. A lógica da doação é o principal antídoto para a cultura do descarte. Toda vez que alguém doa, a cultura do descarte é enfraquecida”. A terceira palavra que o Papa sugere aos presentes para motivá-los é “nas praças”, ou seja, “pelas ruas”. É o compromisso de não permanecer fechados em seu próprio ambiente e cultivar apenas seus interesses, mas de animar o território, ser um sinal tangível, uma presença visível, nunca invasiva”.

Construir duas esperanças é a recomendação que o Santo Padre faz: “a esperança da cura, sempre, e a esperança da terapia, nas modalidades mais atualizadas”. Francisco recordou São João da Cruz, o grande místico, que dizia: “Na noite da vida, seremos examinados pelo amor”. Então, como cada um de nós será visto na “noite da vida”? Esses flashes da matéria lembram o trabalho em favor das pessoas ditas “moradoras de rua” realizado pelo Pe. Júlio Lancelotti, em São Paulo, e de tantas outras pessoas de boa vontade em vários outros lugares.

Fonte da matéria: https://www.vaticannews.va/pt)


Diácono José Bezerra de Araújo
Assistente eclesiástico da PASCOM
Arquidiocese de Natal

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Não corte o fio da vida

Por Diác. Zé Bezerra

O que há de mais precioso para cada criatura de Deus é a vida. Jesus mesmo é quem confirma esta verdade, quando diz: “Eu vim para que todos tenham vida, e a para que a tenham em abundância”(Jo 10,10). Mas para que toda criatura humana tenha vida em abundância, há necessidade de preservar a vida dos demais seres vivos em todos os ambientes que circundam o habitat natural dos humanos. Afinal, fazem parte da obra da criação, como narra a Bíblia no Livro dos Gênesis. “Produza a terra plantas, ervas e árvores frutíferas...; pululem as águas de uma multidão de seres vivos, e voem as aves sobre a terra...; produza a terra seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, repteis e animais selvagens. E assim se fez”(cf. Gn 1, 11-24).

Diante da obra criada por Deus para servir à humanidade e às demais criaturas sobre a terra, cabe a pergunta: como o ser humano está cuidando da sua “casa comum”, obra de Deus sobre a qual habitam todos os seres criados? Um olhar no entorno em que cada pessoa vive em todo Planeta mostra inúmeras ações de degradação do meio ambiente, desprezo pela vida humana e animal, poluição do ar, do solo e das águas, entre outras ações que enfraquecem a Terra... Sim, a Terra tem vida e gera vida e é sobre ela que a vida de todas as criaturas – humanas, irracionais e vegetais – se mantem e se preserva.

Todas as criaturas, não somente a humana, têm direito à vida. E em determinado momento a vida humana ficou tão desvalorizada por causa das ações e atitudes destas mesmas criaturas humanas que a Organização das Nações Unidas (ONU) sentiu a necessidade de criar regras gerais de convivência. Criou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 10 de agosto de 1948. E agora, em comemoração a esta Declaração, a Igreja Católica da América Latina, sentindo o enfraquecimento do respeito à vida em geral, desenvolve uma campanha de solidariedade em defesa da “Casa Comum”, com apoio do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e Pontifícia Comissão para a América Latina. Esta campanha, que tem como título “A vida está por um fio” e com o lema “Tecer o futuro, proteger a vida”, foi apresentada na segunda-feira, 9 de dezembro, na Sala de Imprensa da Santa Sé.

Então, como está a vida no seu entorno? Você respeita os vizinhos, o meio ambiente? Você coloca o lixo no lixo? Planta árvores e não agride os animais? Ou ainda aprisiona as aves em gaiolas com o objetivo de ouvir o cantar delas? Será que esse cantar de uma ave aprisionada é mesmo um canto ou será um choro em apelo pela liberdade? Quer ouvir o canto dos pássaros? Basta plantar árvores, disponibilizar alimentos e deixa-los livres para o seu ir e vir, como você faz diariamente. Você é livre para ir a qualquer lugar, quando quer. Então, porque aprisionar as aves ou animais silvestres?

Deus não quer suas criaturas aprisionadas. “Deus criou os monstros marinhos e toda a multidão de seres vivos que enchem as águas segundo a sua espécie e todas as aves segundo a sua espécie. E Deus viu que isso era bom. E Deus os abençoou: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a Terra”(Gn1, 21-22). Então, não destrua a obra que Deus criou. Lembre-se do ensinamento de Jesus, que promete a todos vida em abundância”. Colabore com a obra de Deus. Não aja como o ladrão (Jo 10,10) que deixa “A vida está por um fio”.





Diácono José Bezerra de Araújo Assistente eclesiástico da PASCOM

Arquidiocese de Natal

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Reumanização é preciso

Por Diác. Zé Bezerra

Quem vê e ouve noticiários ou lê notícias em jornais, sites, revistas e outras mídias eletrônicas de informação, se depara, a cada dia, com situações tão violentas que assustam muitas pessoas. Pior, ainda, é perceber que muitas dessas ações são praticadas por policiais, pessoas que deveriam preservar a sociedade dessa violência. Só para servir de referência, ultimamente foram mostradas nos noticiários três situações. Numa delas um policial joga um homem de cima de uma ponte, sem qualquer confronto, discussão ou luta; outra, numa situação de abordagem, o policial chuta a cabeça do cidadão quando o homem já estava subjugado e no chão; e uma terceira, ainda mais absurda, um sargento aposentado atira contra um grupo de crianças que pediam para ele ligar a sinaleira do veículo em que estava. São cenas bizarras, de tão desumanas.

Do ponto de vista filosófico, “ser humano” significa “um ser vivo racional, capaz de distinguir coisas e elaborar conceitos”. Diante dessa definição e do confronto com as situações citadas no parágrafo anterior, é justo questionar: o que está acontecendo com as criaturas humanas dos tempos atuais, tão desprovidas de sensibilidade? Por que o ser humano, definido como uma criatura racional, age como um animal irracional? Será que a criatura humana está paulatinamente perdendo a racionalidade?

Os questionamentos têm fundamento diante do significado ou definição do que seja senso humano: “qualidade do sensato; cautela, circunspecção; prudência; qualidade de julgar, de entender, de sentir; entendimento, juízo, percepção, sentido”. Afinal, a criatura humana é caracterizada como um ser racional, capaz de ser uma unidade e uma totalidade ao mesmo tempo, enquanto matéria, e que consegue, através da racionalidade, distinguir coisas e elaborar conceitos(pt.wikipedia.org/wiki/Senso comum).

Na música “Trindade Santa”, interpretada pelo Padre José Fernandes de Oliveira, o Pe. Zezinho, uma das estrofes, descreve o Filho de Deus Pai, Jesus, que é enviado pelo Pai à terra, e descreve a razão desse envio: “Um Filho santo, mil vezes santo/ Eternamente estava nesse pai/ Sendo gerado e muito amado/ Mas um certo dia o Pai lhe disse: Vai!/ Vai lá pra terra, vai libertá-la/ Porque o ser humano se animalizou/ Perdeu o rumo, não acerta o prumo/ Está mais violento e se desconjuntou/ (música TRINDADE SANTA, Pe. Zezinho).

Diante das cenas bizarras que se vê nas mídias sociais e noticiários cotidianamente, este ser humano parece ter, realmente, perdido o seu verdadeiro senso de humanidade. O outro ser humano, para algumas pessoas, são como que se não fossem, ou seja, são equiparadas a “coisas” que podem ser descartadas ou um “lixo” que pode ser “jogado” fora. Mas a legislação internacional e do País preservam a criatura humana e define seus direitos e deveres. A criatura humana não é “uma coisa descartável” nem lixo.

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, consta que: Artigo 3°) Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. Artigo 4°) Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos. Artigo 5°) Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes; Artigo 6°) Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da sua personalidade jurídica.

O fato de ser um agente da lei não gera direito de infringir a lei. Antes, tem que cumpri-la em toda a sua plenitude. Infringi-la é crime. Não se combate crime cometendo crime. Não se humaniza alguém tratando-o como animal. O ser humano precisa se reumanizar.






Diácono José Bezerra de Araújo Assistente eclesiástico da PASCOM

Arquidiocese de Natal

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Não colabore com o pai da mentira

Por Dc. Zé Bezerra

Não há dúvida de que a mentira existe desde a criação do homem, e o autor é nada mais nada menos do que satanás – não à toa considerado o “pai da mentira” – por ser “o mentiroso original”. Foi satanás quem contou a Eva a primeira mentira (Gn 3,1). E até hoje a mentira é usada como ferramenta de enganação torpe dos sem caráter, que se aproveitam da inocência e falta de cultura e de senso crítico de muitos para tirarem proveito para si. Ultimamente, o nome tomou uma denominação dita “moderna”, na verdade americanizada – fake News.

O escritor e jornalista Paulo José Cunha, também professor da UnB, escreveu um artigo com o título “Minta, minta sempre. Alguma coisa ficará”. É interessante observar que no primeiro parágrafo do artigo, ele afirma: “O desprezo à ética somado à ganância pelo poder tem resultado no apelo à mentira como forma de angariar o bem mais precioso numa campanha: os votos”. E ele está absolutamente certo. Foi o que se viu no Brasil, antes, durante e depois das últimas campanhas políticas, com o objetivo de angariar votos, simpatizantes, idiotizar e incutir ódio nos incautos e levá-los à prática de atos violentos contra quem eles consideram indignos de assumir poder, numa ou noutra esfera.

A Bíblia tem muitos nomes para Satanás a fim de descrever sua verdadeira natureza: “o príncipe do mundo” (João 12:31); “o deus deste século” (2Coríntios 4:4); “o tentador” (1Tessalonicenses 3:5); "o sedutor de todo o mundo"(Apocalipse 12:9); "Belzebu"(literalmente, "senhor das moscas", o governante dos demônios, (Mateus 10:25) e "Belial", que significa "o maligno"(2Coríntios 6:15). (https://www.gotquestions.org/Portugues/pai-da-mentira.html).

Muitos dos que aceitam as mentiras como verdades absolutas, ou são fanáticos, ou são sem caráter ou querem tirar proveito para si próprio e/ou seu grupo de seguidores, também não menos fanáticos e sem caráter, ou simplesmente “inocentes e sem formação sócio-política”. Esses últimos, pondera-se, sem capacidade intelectual de discernimento entre o que é uma mentira e uma verdade, como costumam dizer os submissos a um superior: “se o chefe disse, é verdade”.

Então, se satanás é o pai da mentira, quem mente é o que? Ora, é um seguidor de satanás. Não pode haver outra conclusão. Os que fazem uso da mentira para tirar proveito, lesar pessoas inocentes, são tal e qual satanás; Ou, como Eva, essas pessoas “caem” na “lábia” dos mentirosos de hoje e repercutem as mentiras – fake News – disseminadas nas mídias sociais. E seus seguidores creem cegamente nas mentiras disseminadas.

É bom lembrar que Jesus condena veementemente os mentirosos. Falando a um grupo de judeus, Jesus disse: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (João 8:44). Lembrem-se os mentirosos o que ensina a Bíblia: “a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte” (Apocalipse 21:8).

Então, leia, estudo, pesquise ao se deparar com determinadas informações e confira se são verdades ou mentiras, antes de partilhar, compartilhar ou sair por aí afirmando aos amigos como se fossem verdades absolutas. Você pode está colaborando com o “pai da mentira”.






Diácono José Bezerra de Araújo Assistente eclesiástico da PASCOM

Arquidiocese de Natal

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

As arapucas de hoje

Por Diác. Zé Bezerra

Foi-se há muito o tempo de infância de algumas gerações em que se brincava de apostar alguma coisa diante da dúvida de um colega ou amigo sobre determinada afirmação ou situação. Diante de uma dúvida, alguém logo apelava. “Aposto que você está errado”! Ou, ainda, em brincadeiras como “jogar bola de gude”(biloca). Era o tempo em que as apostas não passavam de brincadeiras de momento e sem prejuízo às partes.

As apostas da atualidade não são mais “brincadeira de crianças” inocentes em processo de formação em suas comunidades ou em seus lares. As apostas da atualidade vão desde as legalmente realizadas, como através das loterias, até às clandestinas, como o assim chamado “jogo do bicho”, que resiste ao tempo e ainda se firmam no “vale o que está escrito”. Essa forma de aposta clandestina, ante a “vista grossa” das autoridades, ainda está presente nos tempos atuais. E há muitas pessoas que ainda fazem essas apostas no assim chamado “jogo do bicho”.

Mas os tempos mudaram, as tecnologias de comunicação avançaram e se tornaram cada vez mais populares e acessíveis. Ao ligar a TV em um programa esportivo ou para assistir a um determinado jogo, o que mais se vê é propagandas das chamadas “bets”, que são as casas de apostas da modernidade sobre os jogos da rodada e seus resultados. Surgiu uma gama de grupos de apostas legalizadas, mas também clandestinas, via redes sociais. Muitos grupos passaram a “explorar” esse “campo minado” chamadas “apostas virtuais tipo “bets”, envolvendo resultados de jogos de campeonatos por este brasilzão afora, envolvendo clubes de futebol e agregados.

O problema não está na aposta, se legalizada, mas nas “brechas” que essas “casas de aposta” podem abrir, como cooptar determinado jogador para que receba um cartão amarelo, ou seja expulso... Sim, porque a aposta pode se expandir também para essa “brecha” que a casa de aposta abre. Um exemplo é que as autoridades descobriram que muitas dessas “empresas clandestinas de apostas” passaram a influir no resultado dos jogos e, assim, faturam muito dinheiro, enriquecendo algumas pessoas e “depenando” outras. Quando alguém ganha uma dessas apostas, também há alguém que perdeu aquele dinheiro.

Outro problema sério é a possibilidade de “lavagem de dinheiro sujo” por meio dessas “casas virtuais de apostas”. Diante de tantos fatos suspeitos, houve investigação e a descoberta de ilegalidade em muitas delas. Surgiu a necessidade de exigir a legalização e transparência e, ao mesmo tempo, acompanhamento de perto dessas “apostas midiáticas”. Queira Deus que a legalização dessas casas de apostas e uma fiscalização eficiente gerem o recolhimento de impostos e evitem a lavagem de dinheiro sujo. Porque a ganância de alguns não tem limites!

O problema de quem se apega ao dinheiro é nunca se sentir satisfeito com o que tem e querer ganhar sempre mais. É esse tipo de pessoa que adere às apostas. Como ensina São Marcos, “que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida”(Mc 8,36). O conselho aos cristãos é não cair nas chamadas “arapucas” dos tempos modernos, como alguns definem as casas de apostas. Veja o que diz São Timóteo: “Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos, que precipitam os homens no abismo da ruina e da perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições”(1Tm 6,9-10).






Diácono José Bezerra de Araújo Assistente eclesiástico da PASCOM

Arquidiocese de Natal

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

O bom e velho senso crítico

Por Diác. Zé Bezerra

Em sua carta a Tito, o Apóstolo Paulo assim se expressa: “Paulo, servo de Deus e Apóstolo de Jesus Cristo, para levar os eleitos de Deus à fé e a conhecerem a verdade da piedade que se apoia na esperança da vida eterna. Deus, que não mente, havia prometido esta vida desde os tempos antigos, e, no tempo marcado manifestou a sua palavra por meio do anúncio que me foi confiado por ordem de Deus nosso Salvador”(cf. Tt 1,1-9). É interessante destacar que Deus Pai, por meio do Filho, Jesus Cristo, é o mestre e mentor de Paulo.

Mas, no tempo presente, muitos jovens se deixam levar, sem sequer se autoquestionar, por alguns falsos mestres – os assim chamados de “influencers”. Antes de “seguir” alguns desses “mestres” das mídias sociais, muitos jovens deveriam se questionar sobre o conteúdo que essa gente passa. Qual a formação desses “mestres”? São Psicólogos? Teólogos? Acadêmicos? Qual o conteúdo que passam aos seus seguidores? Esse conteúdo é relevante para a formação e a vida dos jovens, para seu futuro, para ampliar seus conhecimentos ou para o seu relacionamento com a família e a sociedade? Ou será que são passadas apenas algumas técnicas de expertise sobre como ‘se dar bem’ na vida sem fazer muitos esforços ou sem qualquer investimento?

Não se sabe até que ponto muitos dos jovens seguidores desses influencers têm o senso crítico a ponto de fazer tais questionamentos... A impressão que se tem é que alguns dos jovens seguidores de tais “mestres” das mídias sociais estão desprovidos da capacidade de analisar, de refletir e buscar mais informações sobre as “verdades” que tais influencers disseminam, ou então é exatamente isto que pretende: “surfar” na vida e enriquecer de bens materiais, sem muitos esforços. Muitos destes jovens demonstram ausência de senso crítico, da capacidade de não aceitar automaticamente tudo que lhe é dito ou imposto como verdade e buscar mais informações antes de tirar qualquer conclusão sobre o que lhe foi repassado como uma verdade.

Prova disso é que, de tempos em tempos, aparecem nas notícias policiais alguns desses falsos mestres “enrolados” com falcatruas, crimes de lavagem de dinheiro sujo, enriquecimento ilícito... Então, não vale a pena ganhar o mundo se você perder a vida. É este o ensinamento bíblico, bastante atual. “... aquele que quiser salvar a sua vida, irá perde-la; mas o que perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, irá salvá-la. Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua vida? Ou que dará o homem em troca de sua vida? Porque, se nesta geração adúltera e pecadora alguém se envergonhar de mim e de minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os seus santos e anjos”(Mc 8,35-38).

Quer ganhar a sua vida? Siga o exemplo de quem trabalhou duro a vida toda – talvez até seus pais sejam este exemplo – para conquistar os bens materiais merecidos e proporcionar uma vida melhor para si mesmo e seus familiares. Não se conquista o mundo vendo influencers numa telinha de computador, tablet ou celular. Essa conquista vem com estudos, formação, aquisição de conhecimentos nas diversas áreas da atividade humana e trabalho. Lembre-se que “Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-la”(Gn 2,15). Quando os judeus perseguiam Jesus porque Ele fazia milagres em dia de sábado, Jesus afirmou: “Meu Pai continua agindo até agora, e eu também”(Jo 5,17).

Com isso, não se quer dizer que o trabalho de todos os influencers não seja sério nem dignificante. Na área certamente há muitos profissionais sérios e de excelente formação. Estes não estão nas telinhas para enganar seus seguidores e clientes. Por isso, como já foi dito neste texto, necessário se faz ter senso crítico sobre o conteúdo recebido. Nem sempre são verdades absolutas, porque isto não existe. Mas há, certamente, conteúdos sérios. Para diferenciar o sério do enganador, basta ter conhecimento e bom senso crítico. E isto se adquire com leitura, muita leitura, de livros, bons jornais e boas revistas – inclusive nas telinhas eletrônicas.






Diácono José Bezerra de Araújo Assistente eclesiástico da PASCOM

Arquidiocese de Natal

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