Tema bem humano e sagrado, dimensão complexa da vida. Corporeidade, dor, sofrimento perpassam pelas páginas da Bíblia. Aflição e choro integram as bem-aventuranças. “Bem-aventurados os que choram, pois eles serão consolados” (Mt 5, 4). De que modo enfrentar com esperança e resignação as mais variadas perdas e derrotas da vida, sobretudo o dissabor da morte? A fé, chama divina que crepita no íntimo de quem crê, poderá iluminar, sendo capaz de trazer uma resposta consoladora e reconfortante. Importante também recorrer a Maria Santíssima, Mãe Compadecida e Consoladora dos aflitos. Muitas vezes, a cultura moderna lida com o sofrimento de maneira perigosa. As promessas de felicidade são baseadas no ter, poder e prazer, pondo em segundo plano os dramas humanos mais sérios. Gastam-se muitas energias para escapar das situações de sofrimento, julgando possível dissimulá-lo. É preciso mostrar o seu sentido. A Igreja tem cuidado dessa realidade?
Atualmente, vive-se num mundo mórbido e ferido. Além da finitude, que é natural a todos, as pessoas sofrem com um tipo de sociedade desigual e injusta, privilegiando certas minorias e exaltando a riqueza e o poder acima da vida. Enquanto isso, muitos padecem de inúmeras violações. Se, de um lado, a medicina avançada alivia e cura tantos males; de outro, o lucro e a busca desenfreada pelo dinheiro fazem pesar sobre a humanidade muitas morbidades. Os interesses lucrativos distanciam cada vez mais os carentes de benefícios e das descobertas científicas. O avanço da medicina, que deveria ser para todos, torna-se impiedosamente seletivo. Diante disso, o cristianismo precisa ensinar o valor da compaixão que ampara e do engajamento contra as cruzes impostas pelas forças de morte do mundo hodierno.
A sociedade passa ao largo diante das queixas e dores dos cidadãos. Profissionais da saúde não se preocupam mais em ouvir. Em grego o termo “clínica” significa escutar, debruçar-se sobre alguém e pôr as mãos. O professor doutor Celso Matias costumava repetir a seus alunos. Isso significa solidariedade e compaixão. Maria Santíssima, ao pé da cruz, é um símbolo de sofrimento e compassividade. O mundo deixou de ser exorável. Além da insensibilidade, empurra as pessoas para o circuito deletério do binômio produção-consumo. Vive-se uma lógica perversa. Enquanto isso, o corpo deve suportar as consequências nefastas da indiferença. Depressão, medo e desprezo são frequentemente realidades causadas pela sociedade atual. E quais as respostas? Ansiolíticos, terapias paliativas etc. Há dores físicas e mentais que, se não tratadas a tempo, transformam-se em mais padecimento.
Enquanto alguns sonham em explorar outros planetas, seria mais urgente, sábio e justo reconquistar a corporeidade: espaço do sagrado mistério da vida e “templo de Deus” (1Cor 3, 14). Hoje, a vulnerabilidade corpórea pesa sobretudo para os mais carentes e menos favorecidos. O rito da escuta atenta e a palavra partilhada são importantes para a saúde do corpo e da alma. Cristo sempre escutava e era cheio de misericórdia pelos doentes e pobres, sofridos e pecadores, colocando-se ao lado dos esquecidos e rejeitados de seu tempo.
Os cristãos devem seguir a sensibilidade de Jesus com os mais feridos da condição humana. “Tive compaixão deles, pois eram como ovelhas sem pastor” (Mc 9, 36-38). “O Verbo se fez carne para que não fosse desprezado nenhum corpo, por mais ferido que esteja”, lembrava São João Paulo II na Carta Apostólica “Salvifici Doloris” (Do sofrimento salvífico). A presença misericordiosa diante do infortúnio do próximo torna Deus presente O amor fraterno salva e a caridade redime. O salmista nos consola e fortalece: “Muitas são as aflições dos justos, mas de todas elas o Senhor os libertará” (Sl 34/33, 20).
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