domingo, 17 de maio de 2026

Quando o altar se curva ao Palanque (Diác. Edson Araújo)

O Brasil atravessa uma hora escura. Não porque lhe faltem vozes, mas porque sobram ruídos. Não porque lhe faltem líderes, mas porque escasseiam testemunhas. Vivemos um tempo em que muitos falam em nome do povo, mas poucos carregam as dores do povo; muitos falam em nome de Deus, mas poucos se deixam ferir pela verdade de Deus. E assim a nação caminha entre discursos inflamados, promessas ocas e fidelidades divididas, enquanto o povo, cansado, segue esperando justiça, compaixão e verdade. A polarização brasileira deixou de ser apenas eleitoral e passou a ferir a convivência social, as relações familiares e a própria percepção do outro. Estudos descrevem esse processo como a passagem de uma polarização político-partidária para uma polarização social, mais enraizada e cotidiana; uma das pesquisas indica que 83% dos entrevistados percebem o país como “mais dividido”. É nesse chão ferido que a palavra profética precisa voltar a ser ouvida. Porque o profeta não nasce para agradar reinos, nem para defender cortes, nem para disputar o aplauso das multidões. O profeta nasce para lembrar ao poder que ele não é absoluto. Nasce para lembrar ao povo que a mentira, ainda que repetida mil vezes, não se converte em verdade. Nasce para dizer que Deus não pode ser sequestrado por ideologias, nem o sofrimento humano pode ser usado como escada para projetos pessoais.

Mas o que vemos com frequência? Políticos que juram servir à nação, mas se inclinam diante dos próprios interesses. Homens e mulheres públicos que, em tempo de eleição, abraçam crianças, beijam o povo, citam a justiça, invocam a democracia e prometem redenção; mas, depois, recolhem-se aos cálculos do poder, à proteção de seus grupos, à manutenção de seus privilégios e à liturgia fria das conveniências. Não são poucos os sinais de que o povo percebe essa contradição: levantamento do Datafolha mostra que 78% dos brasileiros acreditam que os parlamentares do Congresso priorizam os próprios interesses em vez de defender a população; outra pesquisa aponta que 52% não confiam nos partidos políticos e 45% desconfiam do Congresso Nacional. Esse é um pecado público que corrói a alma da democracia: quando o mandato deixa de ser serviço e se torna posse; quando a representação deixa de ser cuidado e se torna estratégia; quando o povo deixa de ser irmão e passa a ser apenas número, massa, plateia, voto. O representante do povo não é aquele que aprende a falar como povo, mas aquele que aprende a sofrer com o povo. É aquele que não usa a dor coletiva como discurso, mas a assume como responsabilidade. Onde falta essa disposição, sobra teatro. Onde falta compromisso, cresce a encenação.

Mas seria menos grave se essa deformação ficasse restrita aos palácios e parlamentos. O mais doloroso, porém, é quando ela atravessa também os púlpitos, os altares e os espaços da fé. Porque então já não se manipula apenas a esperança cívica, mas também a consciência. E mexer na consciência do povo em nome de Deus é uma das formas mais perigosas de abuso. Há lideranças religiosas que esqueceram o peso santo de sua vocação. Em vez de vigiar pela verdade, vigiam pelo êxito do seu lado. Em vez de formar consciências livres, produzem fidelidades cegas. Em vez de denunciar o pecado onde quer que ele esteja, escolhem protegê-lo quando ele veste a camisa ideológica de sua preferência. E, assim, o profeta vai sendo substituído pelo cabo eleitoral; o pastor, pelo operador de influência; o homem de Deus, pelo animador de trincheira. É preciso dizer com clareza: a missão espiritual não é escolher entre o lado A e o lado B. A missão espiritual é permanecer do lado da verdade.

E a verdade nunca se ajoelha diante de partidos. A verdade corrige a direita quando ela se torna cruel. A verdade corrige a esquerda quando ela se torna soberba. A verdade confronta o governante que mente, o parlamentar que negocia a dignidade do povo, o líder religioso que troca discernimento por militância. A verdade não tem legenda fixa. A verdade tem exigência moral. Por isso, quando líderes religiosos tomam partido de maneira acrítica, não apenas se expõem politicamente; eles empobrecem espiritualmente o povo. O altar não foi feito para ser extensão do palanque. O púlpito não foi dado para canonizar candidatos. A comunidade de fé não foi chamada para ser curral de ninguém. Quando isso acontece, a religião deixa de ser luz e passa a ser instrumento; deixa de ser consciência e passa a ser máquina; deixa de ser voz livre e passa a ser eco de interesses alheios ao Evangelho.

Não é sem razão que a CNBB alertou que “a manipulação religiosa, protagonizada por políticos e religiosos, desvirtua os valores do Evangelho e tira o foco dos reais problemas” do Brasil, reafirmando também que a Igreja não deve se identificar com políticos nem com interesses partidários. O alerta é urgente porque a fé tem peso real na vida pública brasileira. Pesquisa Datafolha mostrou que 49% dos eleitores consideram a religião do candidato muito importante para decidir o voto, e 22% dizem que o apoio de um líder religioso pesa muito nessa decisão. Isso mostra que a palavra de uma liderança espiritual pode formar, mas também pode deformar; pode libertar, mas também pode aprisionar; pode iluminar, mas também pode confundir.

Também por isso a Justiça Eleitoral reconhece limites: o Tribunal Superior Eleitoral entende que declarações públicas de apoio religioso estão no campo da liberdade de manifestação, mas deixa claro que cultos e estruturas religiosas não podem ser convertidos em instrumentos de propaganda eleitoral ou desequilíbrio da disputa. Mas, para além da lei, existe ainda o juízo da consciência. E é nele que esta hora brasileira mais nos interpela. Porque há religiosos que condenam a mentira quando ela vem do adversário, mas a relativizam quando ela favorece os seus. Há políticos que denunciam a corrupção do outro, mas se calam diante da corrupção do próprio grupo. Há quem fale de moral para controlar costumes, mas não para purificar estruturas.

Há quem grite contra inimigos imaginários, enquanto fecha os olhos para a fome real, para a desigualdade real, para a violência real, para a humilhação real sofrida pelos pobres. Eis a grande contradição do nosso tempo: muitos dizem defender o povo, mas não suportam o povo concreto; muitos dizem defender a Palavra de Deus, mas não suportam a verdade de Deus. Preferem um povo abstrato, útil ao discurso. Preferem um Deus domesticado, útil à retórica. Mas o povo real tem rosto cansado, salário apertado, medo do amanhã, mesa vazia, dignidade ferida. E o Deus verdadeiro não cabe em slogans, não se deixa capturar por campanhas, não assina manifestos de adoração a líderes humanos.

O verdadeiro profeta não distribui bênçãos para blindar poderosos. O verdadeiro profeta incomoda. Ele lembra que o Reino de Deus não se confunde com governos passageiros. Ele recorda que a autoridade só é legítima quando se converte em serviço. Ele denuncia a idolatria do poder, a sedução da mentira e o uso sacrílego da fé para fins de controle. Ele não pergunta primeiro quem é o culpado “do outro lado”; ele pergunta onde a injustiça está triunfando e quem está pagando o preço por ela. Talvez seja justamente disso que o Brasil precise novamente: de homens e mulheres públicos que temam a própria consciência mais do que temam perder eleições; e de homens e mulheres de fé que temam trair a verdade mais do que temam perder seguidores.

Porque uma nação só pode ser curada quando a política se converte em serviço e quando a religião volta a ser fonte de discernimento, compaixão e coragem moral. Enquanto políticos continuarem usando o povo como degrau, e religiosos continuarem usando Deus como selo de legitimação ideológica, seguiremos empobrecidos por dentro. Teremos muito barulho e pouca conversão; muita disputa e pouco compromisso; muita bandeira e pouca verdade. Que os políticos se lembrem: não foram eleitos para se servirem do povo, mas para servirem ao povo. Que os religiosos se lembrem: não foram chamados para defender facções, mas para testemunhar a verdade. E que todos nós nos lembremos: quando o altar se curva ao palanque, a profecia adoece; mas quando a verdade volta a ocupar seu lugar, ainda há esperança para a nação.

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