A parábola do joio e do trigo, proclamada neste domingo, não é apenas uma metáfora espiritual: é também um espelho social. O Evangelho apresenta um campo onde o bem e o mal crescem juntos. Os servos querem arrancar o joio imediatamente, mas o dono da plantação os impede. Ele sabe que a pressa pode destruir o trigo. A mensagem é clara: a realidade é complexa, e decisões precipitadas podem causar mais danos do que soluções. Deus, ao contrário de nós, sabe esperar. Ele sabe discernir. Ele sabe julgar no tempo certo. Essa lógica contrasta com a forma como lidamos com muitos fenômenos contemporâneos.
A Copa do Mundo, por exemplo, nasceu como um evento de inclusão, um espaço de encontro entre culturas, um palco onde a humanidade celebra sua paixão comum pelo futebol. Esse é o trigo: a beleza do esporte, a alegria das torcidas, a superação dos atletas, o encontro entre nações. Mas o joio também está lá, e não é pouco. Investigações jornalísticas, análises independentes e denúncias ao longo das últimas décadas levantaram questionamentos sobre a transparência de decisões, contratos e escolhas de sedes. A festa dos povos convive com interesses financeiros gigantescos, concentrados nas mãos de poucos. O evento que deveria ser símbolo de fraternidade tornou-se, em muitos aspectos, instrumento de poder econômico e político.
Não é necessário aderir a teorias conspiratórias para reconhecer que há problemas estruturais sérios, amplamente discutidos por especialistas e observadores internacionais. A liturgia deste domingo nos convida a olhar para essa realidade com maturidade. Não se trata de demonizar o evento, nem de ignorar suas contradições. Trata-se de reconhecer que o mundo é feito de trigo e joio, e que nossa responsabilidade é cultivar o que é bom sem fechar os olhos para o que é injusto. A paciência de Deus não é passividade; é discernimento. Ele não arranca o joio antes da hora, mas também não o confunde com o trigo.
O encerramento da Copa, portanto, é uma oportunidade para refletir sobre o tipo de sociedade que estamos construindo. Queremos um mundo onde grandes eventos realmente promovam inclusão, ou estamos aceitando que eles se tornem vitrines de desigualdade? Estamos celebrando o futebol como expressão da alma humana, ou estamos apenas assistindo ao espetáculo financeiro de poucos? A pergunta não é apenas institucional; é pessoal. Somos trigo ou joio na história que ajudamos a escrever?
A liturgia nos lembra que o Espírito Santo intercede por nós em nossa fraqueza. Isso significa que não precisamos ser perfeitos para transformar o mundo; precisamos ser conscientes. Precisamos ser críticos sem perder a esperança, firmes sem perder a misericórdia, vigilantes sem perder a capacidade de celebrar o que é bom. O joio existe, seja na Copa, na política, na economia, nas instituições, e até dentro de nós. Mas o trigo também existe. E é esse trigo que Deus quer preservar, cultivar e fazer florescer. O desafio é não permitir que o joio nos faça desistir do campo inteiro.
O Reino de Deus cresce silenciosamente, mesmo em meio às contradições. E cresce porque ainda há pessoas dispostas a agir com justiça, a denunciar abusos, a promover inclusão, a celebrar o que é verdadeiro. A Copa termina, mas o chamado permanece: cultivar o trigo, reconhecer o joio e trabalhar para que o campo da humanidade produza frutos de justiça e fraternidade.
Esse texto é parte integrante do jornal O Diácono Celebração da Palavra, deste domingo 19JUL2026 e você pode acessar o jornal clicando no link.
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