Uma reflexão sobre fé,
pureza de coração e o poder de confiar em Deus
A manhã em que Jesus voltou com fome
Era manhã cedo quando Jesus e seus discípulos saíram de Betânia em direção a Jerusalém. O sol ainda não havia aquecido as pedras do caminho, e havia uma expectativa silenciosa no ar. Jesus tinha fome. Avistou ao longe uma figueira frondosa, repleta de folhas. As folhas prometiam fruto.
Ele se aproximou com esperança, mas não havia nada. Só folhagem. Uma árvore que exibia vida por fora, mas era estéril por dentro.
Os discípulos ficaram em silêncio. A cena havia sido estranha, uma maldição a uma árvore. Mas Jesus não estava falando apenas de uma figueira. Ele estava prestes a chegar ao Templo, e o que encontraria lá seria exatamente o mesmo: aparência externa de religiosidade, sem o fruto verdadeiro do encontro com Deus.
O Templo que virou mercado e a oração que move montanhas
Quando Jesus chegou ao Templo de Jerusalém, o espetáculo que encontrou o fez agir com urgência incomum. Vendedores de pombas, cambistas, compradores, o átrio das nações, o único espaço onde os gentios podiam orar, havia sido transformado em praça comercial. A Casa de Deus havia sido sequestrada pelo lucro.
A fúria de Jesus não era o arrebato de alguém impaciente. Era a dor de alguém que vê o sagrado profanado, o espaço do encontro com Deus ocupado por aquilo que afasta de Deus. A religião havia se tornado uma casca, assim como a figueira. Muita folha, nenhum fruto.
Na manhã seguinte, ao passarem pelo mesmo caminho, Pedro avistou a figueira maldita. Havia murchado até as raízes. Ele chamou Jesus, espantado. E foi então que Jesus deu o grande ensinamento que aquele gesto havia preparado.
Ele não falou primeiro sobre figueiras. Falou sobre fé. Falou sobre oração. Falou sobre perdão. São Pedro, na primeira leitura, já havia entendido isso: o tempo é curto, é preciso ser sóbrio, velar em oração, amar com intensidade, servir uns aos outros com os dons que Deus deu, porque a prova, como o fogo, revelará o que é ouro e o que é palha.
A figueira murchou porque estava vazia. Mas o discípulo que ora com fé, que perdoa de coração, que ama com intensidade, esse dará fruto mesmo quando ninguém espera.
Que templo somos nós?
Irmãos e irmãs, a pergunta que esta liturgia nos faz não é sobre uma figueira de dois mil anos atrás, nem sobre um templo que já não existe em Jerusalém. A pergunta é sobre nós.
Que templo somos nós? O que os que chegam até nós encontram, folhagem abundante ou fruto verdadeiro? A nossa fé é aparência ou raiz? Fazemos da nossa vida de oração um ritual vazio, ou uma conversa real com Aquele que nos conhece e nos ama?
Jesus nos diz hoje: tende fé em Deus. Não fé decorativa, não fé de fachada. Fé que move montanhas, e move montanhas porque está enraizada no amor e no perdão. "Quando estiverdes em oração, se tiverdes algo contra alguém, perdoai", esse é o fruto que Deus espera da nossa figueira.
O Salmo nos convida a anunciar que "o Senhor vem para governar a terra com justiça". Essa justiça começa em nós, quando abandonamos a hipocrisia, quando saímos do mercado que montamos dentro do nosso coração e voltamos a ser o que fomos chamados a ser: casa de oração, lugar de encontro, templo vivo do Espírito Santo.
Que esta reflexão nos ajude a purificar o nosso coração como Jesus purificou o Templo. E que não sejamos como figueiras apenas cheias de folhas, mas como árvores que dão fruto, fruto de amor, de perdão, de serviço, para a glória de Deus e o bem dos irmãos.
1Pd 4,11

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