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domingo, 28 de junho de 2026

Diácono Adilson resgata história das Santas Missões Populares em entrevista especial na Rádio Rural


Entre 2003 e 2009, a Arquidiocese de Natal viveu um dos capítulos mais marcantes de sua evangelização popular: a experiência das Santas Missões Populares, uma metodologia missionária que mobilizou comunidades inteiras e reacendeu a espiritualidade em diversas paróquias do Rio Grande do Norte.

Embora as Santas Missões sejam uma tradição antiga no Brasil. especialmente no Nordeste, com forte presença dos Frades Capuchinhos, como o inesquecível Frei Damião, além dos Redentoristas, congregações religiosas e movimentos leigos, a experiência potiguar ganhou identidade própria e deixou frutos que permanecem vivos na memória do povo.

Para preservar essa história e torná-la acessível às novas gerações, o diácono Francisco Adilson da Silva reuniu depoimentos, registros e lembranças no livro que resgata a trajetória das Santas Missões Populares no estado. A obra, fruto de pesquisa e vivência pastoral, se tornou referência para quem deseja compreender a força missionária que marcou a Arquidiocese de Natal naquele período.

E é justamente sobre esse legado que o diácono Adilson conversa no programa Aprendendo com a Igreja, em uma entrevista emocionante que promete despertar recordações e renovar a fé dos ouvintes. Ele compartilha bastidores da elaboração do livro, histórias marcantes das missões e a importância desse movimento para a vida das comunidades.

A entrevista vai ao ar neste domingo, dia 28, das 10h às 11h, na Rádio Rural FM 91.9.
O Aprendendo com a Igreja é uma produção do Setor de Comunicação da Arquidiocese de Natal e é transmitido todos os domingos, sempre às 10h.

Acompanhe o programa pelo link:

🔗 Rádio Rural de Natal (FM 91,9) 🔗 https://www.youtube.com/@arqnatal

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sábado, 4 de abril de 2026

Do escândalo da cruz à vitória de um preso político (Diác. Francisco Adilson da Silva)

A cruz, símbolo e sinal de escândalo, de vergonha, instrumento de tortura e silenciamento, ganhou novo significado, quando um preso político, julgado e condenado por dois poderes (Religioso e Politico), quis tomá-la sobre Si, subindo, Ele mesmo, ao Gólgota, como subversão ao poder estabelecido, para ser sinal de resistência e de superação de toda e qualquer barreira, imposição e dor, inclusive, da própria morte. Aquilo que parecia ser o fim — a exposição pública, a dor, a condenação, a tortura — revelou, explosivamente, a vitória da verdade sobre a mentira, da justiça sobre toda e qualquer injustiça, da liberdade plena contra as tantas formas de opressão.

Depois Dele, muitos que o seguiram e ainda hoje o seguem, são perseguidos por acreditar na possibilidade de revolucionar o mundo com Suas ideias, ousando desafiar as estruturas sociais e políticas injustas, em favor da vida e do Bem Viver.

Se a cruz não calou a profecia, a perseguição, a prisão injusta, a tortura e a morte promovidas pelos sistemas ditatoriais nazifascistas hoje, também não definem o destino de quem luta por justiça e pela libertação integral do ser humano e da vida planetária, por mais que existam Trumps, Netanyahus, Bolsonaros e seus asseclas golpistas traidores lesa-pátria ou o diabo que o valham, porque o cárcere pode conter o corpo, mas não aprisiona a esperança, a perseguição e a tortura não calam a consciência dos verdadeiros seguidores e seguidoras de Jesus. A dor e o sangue derramado pelos inocentes tornam-se semente do sonho daquilo que Ele, Jesus de Nazaré, o condenado, torturado, assassinado na cruz, apelidou de Reino de Deus!

Acreditar no escândalo da cruz que liberta, mostra que a dor suportada não é em vão, que o sofrimento é semente e que a resistência floresce, porque pode-se “matar uma flor, mas a primavera sempre virá”.

Da cruz vem a vitória e nela todo pranto é cessado, porque Ele já não morre mais! Não adianta selar o túmulo com qualquer pedra por mais pesada que seja (pedra da injustiça, da violência contra as mulheres, os pretos e empobrecidos, das crianças mortas pelos genocidas e exploradas em sua inocência…) porque Sua vitória nos garante a vitória dos que o seguem como prática de vida (não apenas nos ritos vazios por mais belos que sejam com todas as pompas e ricas vestes…) nas lutas populares e na resistência aos sistemas nazifascistas satânicos.

Com a vitória Dele na Cruz ganhamos a certeza da nossa vitória e, com Ele, tornamo-nos imortais!

Uma santa e feliz Páscoa na busca constante de mudança de vida rumo ao Reino definitivo, que se concretiza na vivência do amor fraterno, na luta pela justiça, na construção da solidariedade, na resistência e na subversão da ordem estabelecida!

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

As imagens falam por si (Diác. Adilson da Silva)


O Natal do Senhor nos revestiu da esperança que brota de um curral fétido, cuja criança envolta em cueiros tão humildes, descansa no cocho dos animais que ali se alimentam. O Natal nos trouxe, pois, a possibilidade de sentirmos a grandeza de um Deus que se despe de sua "realeza", rebaixando-se como "um ninguém", para nos elevar em nossa dignidade humana.

Será que esse olhar é real de nossa parte ou estamos encruados  com tantos ritos vazios(com lindas alfaias e cálices de ouro; de muitas vênias e tantos incensos...), de grandes banquetes regados a bons e caros vinhos, das grandes festas pagas com dinheiro público para ludibriar o povo... que ainda não enxergamos o Cristo pobre no meio dos pobres, das vítimas do ódio e das guerras e da promoção dos genocídios que exterminam crianças e famílias inteiras?

Então, é preciso revermos a fé que professamos para virar a chave do ano que começa, para que nele busquemos construir a paz. Não uma paz passiva, subalterna a quem quer que seja, mas àquela PAZ INQUIETA que o Menino Deus nos trouxe e nos insulta a buscá-la.

E essa paz "não vem apenas com o fim das guerras, mas com o início de um mundo novo, onde nos reconhecemos mais unidos e mais irmãos do que imaginávamos", como nos dizia o saudoso Papa Francisco.

Deste modo, desejo a cada um e a cada uma, que 2026 seja desafiador e inquietante, nos movendo a partir de uma fé real, na crença de que é possível construir o Bem Viver, contra tudo aquilo que nega a vida, que promove o ódio e a morte, impulsionados(as) pela Paz verdadeira que Ele, o Senhor da Vida,  nos dá! 

(Foto extraída do G1) Genocídio em Gaza - Para ajudar em nossa reflexão e tentar descobrir onde Jesus continua a nascer...  Interessante a pombinha que insiste em anunciar a Paz em meio aos escombros e tantas mortes... Herodes continua seu projeto de morte, mas o Recém nascido insiste em anunciar o projeto da Vida!




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terça-feira, 12 de novembro de 2024

IGREJA E O CLERICALISMO. QUEM PODERÁ SUBSISTIR? UMA IGREJA QUE NOS DEIXA COM MUITAS INTERROGAÇÕES NOS TEMPOS ATUAIS!

Por Diác. Adilson da Silva

PARTE III

“Mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer. Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também”

(I Cor. 12, 11-12)

Revisitando a Sagrada Escritura, no primeiro livro endereçado à Comunidade de Corinto, em todo o seu capítulo 12, percebemos algo interessante: A Igreja é revelada como “Sinal do Espírito Santo”, já que São Paulo entende que o Espírito é dado a toda comunidade, conforme Ele quer, mantendo-a una, como Corpo de Cristo, apesar de membros diversos, onde cada um/a age segundo Seus dons/carismas. Os primeiros séculos da Igreja podemos perceber isso mais claramente e, não víamos muito a distinção entre os seus membros, apesar daqueles serviços mais específicos, não havia uma “hierarquia rígida”, diferenciando “sacerdócio comum” e o “sacerdócio ministerial”. Aliás, este último parecia não ocupar um lugar superior, mas de serviço à Comunidade. Ao longo da história, a Igreja foi se firmando e sentindo a necessidade de constituir estruturas organizacionais e jurisdicionais que hoje percebemos pesadíssimas. Essas “estruturas” geraram e geram o que chamamos hoje de clericalismo, que corrói a Igreja por dentro, como um câncer sem cura, contradizendo os valores do próprio Evangelho, naquilo que lhe é primordial como missionária. 

Creio que podemos nos perguntar e buscar alternativas, inclusive escutando o ensinamento do Papa Francisco que deseja uma Igreja inserida nas realidades do mundo, em saída, sinodal, de comunhão e participação: Será que estas estruturas atualmente não precisam ser revisadas para que a Igreja possa exercer sua missão conforme os dons que ela recebe do Espírito, na construção dos sinais do Reino de Deus? De antemão, já asseguro, com tristeza que, parece-nos cada dia, uma tentativa cada vez maior de fechamento, tanto que o próprio Papa Francisco tem chamado a nossa atenção insistentemente, o que não tem surtido muito efeito, pois sua voz é abafada pelos ruídos desta “perversão na Igreja” que, segundo ele próprio, tem transformado “pastores em meros administradores”, “funcionários do sagrado”, levando a Igreja a se tornar uma “alfândega burocrática”, distante dos mais pobres e vulnerabilizados.

Talvez muitos de nós nem percebamos o mal que estamos fazendo à Igreja (não somente os que participam do sacerdócio ministerial, mas estes, principalmente) ao nos distanciarmos do Seguimento a Jesus de Nazaré, gerando um contratestemunho, quando nos distanciamos do povo, colocando-nos numa espécie de pedestal, nos comportando como “autoridades” (e não como servidores), submetendo o povo de Deus a nossos pés, demonstrando “força” através do nosso autoritarismo, da nossa falta de acolhimento e banalização de tudo o que é popular e que faz parte da vida do povo. Há coisas sintomáticas, simples, mas que revelam isso. Aliás, a volta da batina preta, do barrete e demais adornos eclesiásticos e litúrgicos, já nos fazem “diferentes”, numa postura superior por demais, mantendo-nos num certo distanciamento do povo. 

Parece que estamos num degrau bem mais acima e não no meio deste, como deveríamos estar. Talvez o problema não seja nem as “indumentárias” em si, mas realmente o nosso comportamento autoritário, presunçoso, na verdade, “principesco” e não de alguém “tirado do meio do povo para servir a este povo” (cf. Hb 5, 1-6). Não é raro, andando em nossas comunidades, encontrar fiéis, sobretudo agentes pastorais, missionários e missionárias, desencantados com a forma de agir dos seus pastores, que têm dificuldade de se abrir ao diálogo e facilidade de se impor com seu autoritarismo, porém estes, não se sentem à vontade para dialogar com o seu padre, porque têm “medo das represálias”, “dos castigos” e “proibições”. Um leigo (a) se contrapor, questionar qualquer que seja a postura do ministro ordenado é coisa que “não se deve fazer”, correndo o risco de alijamento dentro da própria Comunidade.

Em relação aos mais empobrecidos, estes já se julgam “inferiores”, pela sua própria condição de vulnerabilidade a que foram submetidos. E, de nossa parte, como Igreja, isso se agrava pela falta de acolhimento da própria Comunidade (não apenas dos seus pastores). Estes não têm lugar, enquanto espaço nas estruturas, tampouco lugar de fala, de expressão diante da opressão a que estão submetidos pela sociedade, corroborada pela “Igreja” que lhes nega espaço e com eles não se compromete em suas lutas pela sobrevivência/vida. Insisto que não se trata apenas de oferecer “esmolas”, pois os pobres não precisam de esmolas, mas de caridade-amor-compaixão, tal como Jesus os acolheu e a Igreja os deve acolher, sem nem pestanejar. Aliás, essa era a atitude do Mestre e foi esse legado que Ele nos deixou e seremos um dia julgados por Ele, se acolhemos ou não os injustiçados (cf. Mt 25). Não basta o “culto”, mas “o testemunho que o culto pode promover” (cf. Mt 7,21). 

Na verdade, os mais empobrecidos e vulnerabilizados não têm a Igreja católica como lugar de pertença, com raríssimas exceções. Na verdade, em geral, não conseguimos chegar até eles. Parece, numa comparação tosca, um pouco até com a parábola do “Rico e do Pobre Lázaro”. É uma distância enorme. Muitos têm medo da aproximação destes e, às vezes, costumeiramente, isso se apresenta verdadeiramente como aporofobia, pois é isso que movimentos nazifascistas, que espalham o ódio, vêm contaminando a sociedade. Quem não percebeu os olhares dentro do templo, na hora que um “mendicante”, sujo, esfarrapado, drogado, com um odor nada agradável adentra o recinto (e ele entra ali muitas vezes pela sua situação de inconsciência pelos entorpecentes que consome e o consome), sendo gentilmente convidado (ou à força mesmo) a se retirar do ambiente, porque as “pessoas de bem” (bem vestidas e bem alimentadas) e aliadas ao sistema que condena os miseráveis, se sentem incomodadas. E ai daquele ou daquela que se atrever a abrir para estes as “portas do templo”. 

Outra coisa que me chama a atenção, já que cresci numa casa paroquial, onde o vigário à época, em dia de feira, pós missa, vinha trazendo sempre alguém para com ele tomar café (e em geral não eram os ricos da cidade, mas algum agente pastoral das comunidades ou até alguém que lhe pedia uma esmola que ele encontrava no caminho). Era um fato que, eu adolescente, me intrigava (até porque me sobrava trabalho para a lavagem da louça), tanto que, a “governanta” da casa, quando via o pessoal chegando com o vigário, cochichava a quem estivesse perto: “Pronto. A rede de arrasto chegou!” (rs). 

Sem desconsiderar a situação de violência de hoje, também me chama a atenção o “fechamento” das casas paroquiais. A casa paroquial sempre era vista, de certo modo, como a “caso do povo”. Hoje é raro encontrar uma casa paroquial aberta (porta aberta aqui não é a porta em si), onde ao menos os agentes pastorais, se não o povo, possa adentrar. Falo da estrutura que já é pensada para que “ninguém adentre”. Com essas questões que levanto, não desejo ferir ou condenar alguém e, jamais, a minha própria Igreja. Contudo, acredito que vale a pena uma reflexão: que tipo de Igreja estamos sendo hoje? Quais as interrogações que o nosso povo faz a nosso respeito? Como os mais pobres nos veem? Será que isso, numa “Igreja sinodal”, em saída, missionária, de comunhão e participação, é “pecado” a gente despertar alguma reflexão deste tipo entre nós?

Para mim, essas questões, por menores que sejam e as julguemos irrelevantes, fazem parte de um modelo, cujas raízes estão no tão criticado clericalismo. É esse modelo que nos distancia da proposta do Reino, que talvez tenha feito muita gente migrar e vem se refletindo no rápido avanço de um processo de “transição religiosa”, conforme alguns estudos existentes. Nos últimos 60 (sessenta) anos, as chamadas “Igrejas Pentecostais” ou “Neopentecostais” (em sua maioria com suas verdadeiras “bodegas” ou “supermercados da fé”) vão ocupando as lacunas da Igreja Católica, sobretudo, no meio dos economicamente e socialmente empobrecidos e vulnerabilizados.

Percebemos a olho nu que a periferia de nossas cidades, acampamentos e assentamentos rurais vão se enchendo de igrejas “evangélicas pentecostais” ou “neopentecostais”. Muitas destas nada têm a ver com as Igrejas evangélicas tradicionais. Essas “igrejas evangélicas” em geral, são seitas, cujos pastores buscam se locupletar (e aqui respeito os fiéis que, por falta de um processo de evangelização nosso, foram de certa maneira ludibriadas, inclusive com as vãs promessas de melhorias de vida, a partir da chamada teologia da prosperidade), cujo interesse é o seu enriquecimento, usurpando os pobres e toda a comunidade. 

Neste sentido, há até um filme dos anos 90, intitulado “Fé demais não cheira bem”, que apresenta “um reverendo charlatão que vive pregando a salvação com a Bíblia na mão em troca de doações. Apesar de seus truques empolgarem multidões, seus milagres são apenas efeitos produzidos com espelhos e fumaça. O reverendo e sua caravana estão sempre viajando pelos Estados Unidos em busca de mais dinheiro, até que seu ônibus quebra em uma pequena cidade, cujo xerife local está disposto a provar que tudo não passa de uma fraude”. (FILME - Fé de mais não cheira bem)O filme de certa maneira é um retrato do que hoje vemos dentro de nossas Igrejas onde o charlatanismo fala alto, sobretudo no meio neopentecostal, utilizando a chamada “teologia da prosperidade”.

A teologia da prosperidade (TP) surgiu nos EUA, no século XIX, como uma corrente teológica “cujo eixo central era a comercialização da fé cristã a partir da deturpação dos ensinamentos bíblicos que se espalhou pelo mundo. Como diferencial, defendia ardorosamente o acúmulo de riquezas materiais na terra, exaltando os privilégios que a riqueza e o dinheiro podem trazer, apresentando-os como ‘retribuição de Deus’ aos fiéis que seguem sua doutrina, substituindo a fé e a devoção divinas por próspero empreendimento”. É aquela história que, quanto mais dízimo e ofertas, Deus mais abençoa e lhe promete enriquecimento. A Palavra de Deus de nada vale neste sentido, até porque Jesus nunca prometeu riqueza e vida boa a quem o segue. Ele prometeu, sim, apenas cruz, perseguição, dor e sofrimento (“quem quiser me seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me...”). E aí, através dessa corrente teológica, haja usurpação dos fiéis em nome de Deus! (Cf. em Teologia da prosperidade: O Mercado da fé e a fé mercadológica).

A ausência da Igreja Católica no meio dos mais empobrecidos, aliada às falsas promessas da TP das Igrejas Evangélicas Neopentecostais, bem como a inserção dos seus pastores na política partidária (A chamada “Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional” atualmente tem 228 integrantes: 202 deputados federais e 26 senadores, que se alia por sua vez às pautas conservadoras e aos interesses do grande capital) favorecendo os interesses, muitas vezes nada cristãos, tem contribuído para o aumento do número de fiéis evangélicos, fazendo “estourar” o fenômeno da chamada “transição religiosa”.

Atualmente, segundo dados do Censo do IBGE de 2022, o Brasil “tem mais templos ou outros tipos de estabelecimentos religiosos do que a soma de instituições de ensino e unidades de saúde”. De acordo com a análise dos números, o País possuía em 2022, 247.510 estabelecimentos de saúde; 264.445 de ensino e 579.798 estabelecimentos religiosos, quase 70 mil a mais que o número dos estabelecimentos de saúde e de ensino. Só no RN, temos 3.885 estabelecimentos de saúde e 5.010 de ensino, contra 8.823 estabelecimentos religiosos (cf. Brasil tem mais igrejas e templos do que escolas e hospitais, aponta IBGE).

Uma pesquisa do cientista político Victor Araújo (Centro de Estudos da Metrópole - CEM), desenhou o mapa dessa transição religiosa no Brasil. “Só em 2019, foram abertas 6.356 igrejas evangélicas no País, média de 17 novos templos por dia” (Igrejas evangélicas apresentaram crescimento vertiginoso no Brasil nas últimas décadas) . Essa média, segundo os estudos sobre a transição religiosa, aponta que, até 2032, o percentual de evangélicos ultrapassará o de católicos.

O sítio da Arquidiocese de Vitória, no Espírito Santo, numa postagem do dia 01 de julho de 2021, traz uma análise bem interessante sobre o “Crescimento das Igrejas Evangélicas e Pentecostais” no qual trata destes fenômenos e questiona, a partir do Documento da Assembleia Eclesial: “o que é que as pessoas procuram noutras igrejas? Por que é que não o encontram na Igreja Católica? O que é que está faltando?”

Um dos pontos que o documento traz é que este crescimento das Igrejas Evangélicas Neopentecostais também tem em vista o domínio político, baseando-se em algumas passagens bíblicas. Inclusive o texto traz um trecho da então ministra Damares, “pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular e da Igreja Batista de Lagoinha em Belo Horizonte, onde ela dizia que ‘é o momento de a Igreja ocupar a nação. É o momento de a Igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a Igreja governar’. Essas palavras estão ligadas diretamente às palavras de Deus descritas no Salmo 33, 12: ‘Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor, cujo povo ele escolheu para si mesmo’. Uma leitura fundamentalista e descontextualizada do texto bíblico leva automaticamente as pessoas a acreditarem em alguém que, ao ser batizado no Rio Jordão, seja visto como ungido de Deus. Expressões e ações de cunho religioso têm crescido em todas as esferas de poder político, tanto federal, como estadual e municipal. A própria nomeação de um ministro do STF à época, foi pautada com essa intenção – ‘ministro terrivelmente evangélico’” (cf. O crescimento das Igrejas Evangélicas e Pentecostais).

Essas questões apontam para a dominiologia / dominionismo ou teologia do domínio (TD), que é um movimento que também nasceu nos EUA, entre os anos 70-80 do século passado e vem se espalhando pelo mundo. A ideia é de firmar o domínio de grupos políticos ultraconservadores a partir da interpretação fundamentalista da bíblia em todo o mundo. É um movimento que precisamos estudá-lo para entender em que poderemos nos tornar, num futuro bem próximo, fundamentado em regimes teocráticos fundamentalistas conservadores e autoritários/ditatoriais.

De uma coisa temos certeza: Os modelos teocráticos são sempre um perigo. O fundamentalismo é um grande perigo. Quantas guerras, perseguições, torturas e mortes fundamentadas em nome de Deus já não tivemos ou temos pelo mundo? Na verdade, qual “Deus” estas pessoas e grupos realmente cultuam, servem e defendem? Essa é mais uma questão que devemos nos aprofundar e descobrir qual é o nosso papel e missão como cristãos, seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. De nossa parte, porém, olhando o modelo eclesial ultraconservador, autoritário, clerical que vínhamos refletindo, não reforçará essa mentalidade fundamentada na dominiologia proposta por essa nova teologia neopentecostal? Como superar este modelo tão condenado por Francisco e pelo próprio Concílio Vaticano II, que corrobora com o fundamentalismo evangélico neopentecostal?

Para nos iluminar nesta reflexão, como “contraponto”, gostaria enfatizar o seguinte: Esta nossa Igreja Particular de Natal, celeiro de vanguardas que chegaram ao Concílio Vaticano II e se espalharam pelo Brasil e pelo mundo, revelou-se como uma “Igreja do Espírito”, retomando o texto Paulino (I Cor 12), pela riqueza de experiências vividas, com tantos carismas e dons. Estas experiencias tão próprias desta Arquidiocese de Natal, hoje pode nos deixar com alguma “pulga atrás da orelha” e levantar uma série de interrogações, tal como: o que houve com essa Igreja que se mobilizou e mobilizou toda uma sociedade a partir do Movimento de Natal, iluminada pela então Ação Católica, de toda uma ação social aguerrida e revolucionária, onde os leigos e as leigas, em plena comunhão com o clero, tinham uma participação efetiva, inclusive de governança na Igreja? Aliás, houve uma época que podíamos sentir o rosto desta Arquidiocese não apenas mais laical (no sentido da participação efetiva e não apenas proforma nos seus destinos), mas laical feminina. A presença das leigas, mulheres consagradas religiosas que assumiam várias Paróquias como vigárias foi uma marca da Igreja de Natal que, inclusive, possibilitou a criação do Ministério Extraordinário da Sagrada Comunhão Eucarística, atualmente presente em todas as dioceses do Brasil e fora do Brasil.

Vale salientar que foi deste chão arquidiocesano que brotou e presenteou à Igreja do Brasil a organização pastoral, a partir da realização das Assembleias Pastorais Arquidiocesanas, referência para a então recém-criada CNBB, cujo Plano Pastoral, resultado destas primeiras assembleias tratava já de uma Pastoral de Conjunto (que já revelava uma “Igreja de Comunhão e participação”), bem antes da realização do Vaticano II. Hoje quando se fala em Igreja Sinodal, não deveria ser novidade para nós, já que há mais de 60 anos vivíamos essa experiencia de uma Igreja de comunhão, participação e missão, onde os leigos e as leigas tinham um papel preponderante, tanto no sentido pastoral, missionário, como administrativo, nesta nossa Arquidiocese. Aliás, enfatizo aqui, como exemplo disso, aquela jovem senhorita, Terezina Villar, que assumiu a Secretaria do Arcebispado e, pelas mãos dela, passaram pelo menos 3 (três) Arcebispos e um Bispo Auxiliar (D. Nivaldo, D. Alair, D. Heitor e D. Costa). 

Terezinha era a figura feminina símbolo desta época da participação do laicato na Igreja de forma efetiva. Ela nunca foi uma “secretária de ‘bater’ ofícios”, mas alguém que era muito mais que isso, como conselheira, como alguém que entendia o que é a Igreja e ajudava inclusive os Bispos nas decisões administrativas-pastorais. Uma mulher de uma visão eclesial e social avançada para a época. A Igreja de Natal deveria tirá-la do anonimato e render-lhe ao menos uma homenagem pelos grandes serviços que aqui prestou. Não somente a ela, mas a uma gama de leigas e leigos que fizeram desta Igreja palco para o mundo em suas ações pastorais inovadoras. É triste quando perdemos a memória e deixamos pelo caminho aquelas e aqueles que nos fizeram crescer, abrindo-se ao Espírito para que nelas e neles Ele realizasse Seus carismas!...

Aproveito para enfatizar também algumas das inúmeras práxis desta nossa Igreja que serviu de lição para outras Igrejas Particulares e para a Igreja Universal. Lembro da primeira experiência de educação à distância, através das “Escolas Radiofônicas”, da criação da Campanha da Fraternidade, das experiências na luta pela reforma agrária, dos programas de educação política, do surgimento das Comunidades Eclesiais de Base-CEBs (hoje as CEBs são tidas por muitos membros do clero e mesmo por alguns leigos(as) por sua ignorância, como “coisa do demônio” – um desrespeito e uma blasfêmia contra o Espírito Santo que fez surgir tantos ministérios e serviços a partir destas Comunidades – ou será que acreditamos que toda essa riqueza de valores e ações foi coisa meramente humana?).

Foi também por esse espírito sinodal, movida pelos dons e carismas do Espírito, que essa Igreja de Natal viveu por quase dez anos (2002 a 2009), uma experiência única de Santas Missões Populares-SMPs que fez resgatar pessoas, fez surgir novos grupos, comunidades, pastorais, serviços e vocações (sacerdotais e religiosas). Um período de efervescência eclesial riquíssima que quero tratar especificamente nos próximos capítulos, que contradiz o modelo clerical que vemos crescer nos últimos tempos, acomodando essa “Igreja” e distanciando-a do seu Mestre e Senhor, Jesus de Nazaré, do qual somos todos e todas seguidores (ou deveríamos sê-lo!).





Francisco Adilson da Silva – Diácono da Arquidiocese de Natal
Coordenador Executivo do Serviço de Assistência Rural e Urbano- SAR

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

OPÇÃO PELOS POBRES

UMA IGREJA QUE NOS DEIXA COM MUITAS INTERROGAÇÕES NOS TEMPOS ATUAIS

PARTE II

“As alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1,1).

UMA COMUNIDADE DE FÉ, DE AMOR E DE SERVIÇO AOS POBRES

Olhando o livro dos Atos dos Apóstolos, temos uma ideia do que era a “Assembleia dos Discípulos de Jesus” no início da sua caminhada eclesial. Fiéis à catequese dos Apóstolos, reuniam-se para a partilha do Pão da Palavra e da Eucaristia, suscitando em cada um/a o sentido de pertença comunitária, do coletivo, pondo-se em comum o que possuíam para superar suas indigências e vulnerabilidades, o que gerava entre os seus participantes um novo modo de vida, através de uma “cultura comunitária” (cf. At 2,42-47). Este novo modo de vida era condição e exigência para qualquer pessoa que, aderindo ao Cristianismo, pudesse fazer parte daquela Comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré, o Ressuscitado. Portanto, caso algum “rico” ou possuidor de mais bens fosse convertido, a exigência era a adesão a esta condição (Lembram do caso de Ananias e Safira? - cf. At 5,1-5). Bom enfatizar também que não se trata de uma simples comunidade sociológica, como conhecemos, mas uma Comunidade de fé, de amor e de serviço, onde a vida dos mais pobres era levada em consideração e ocupava um lugar especial, de modo que “não havia necessitados entre eles”.

Essa Comunidade de “fé, amor e serviço” a quem Atos se refere era a dos discípulos, seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré, preso político, condenado por dois poderes (eclesial-judaico e político-romano), torturado e assassinado com todos os requintes de crueldade possíveis à época, simbolizado pelo terrível instrumento de pena de morte, que era a cruz. No entanto, essa Comunidade acreditava que não se tratava de seguir um cadáver, mas o Ressuscitado! Isso era o que alimentava aquela Assembleia e isso provocava uma maneira de vivência, um modo de vida, uma nova cultura, uma mística, impregnada dessa espiritualidade, capaz de ser reconhecida e temida pelo próprio poder romano que perseguia, torturava e matava os seus participantes e lideranças. No entanto, esses seguidores se multiplicavam, encantados com esse “novo jeito de ser”, esse “modo de vida comum”, tal modo que Tertuliano (convertido ao cristianismo aproximadamente em 195 d.C.), na sua obra “Apologeticus” vai afirmar que “Sangue de cristãos é semente de novos cristãos”, atestando o crescimento dessa “Igreja dos pobres”.

CONCÍLIO VATICANO II E A IGREJA DOS POBRES

Creio que a base e todo o fundamento da Igreja primeira, inspirou profeticamente o Papa Roncalli (São João XXIII), quando convocou e instalou o Concílio Vaticano II, no qual buscou apresentar ao mundo essa Igreja, como “uma Igreja dos pobres”. Tal modo, inicia sua Constituição Pastoral afirmando: “As alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1,1).

Após o Concílio, na América Latina, seguem-se as Conferências Episcopais que buscaram traduzir a Gaudium et Spes (e todo o Concílio), situando a Igreja Latino-América a partir do contexto de exclusão (“Ricos mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres”) e afirmando evangelicamente a sua “opção pelos pobres”, que mais tarde acrescentou-se o termo “preferencial”. Claro que a história do “preferencial” não é encontrada em Medellin, sendo introduzida posteriormente (Puebla) “para agradar parte do episcopado que não entendia o sentido da ‘opção pelos pobres’” (e ainda hoje não consegue entender, em boa maioria ou faz questão de não entender...). O Papa Francisco retoma o Concílio e as Conferências LA e tem repetidamente afirmado e, todos ou uma esmagadora maioria, não o escutamos: “desejo uma Igreja pobre para os pobres. Estes têm muito para nos ensinar”. Ele que assumiu, inclusive, o nome de Francisco, já nos indicando que a escolha do nome do “pobrezinho de Assis”, não é apenas uma questão de “simpatia”, mas para lembrar à sua Igreja o compromisso e o papel que a ela deve ter diante das tantas situações de vulnerabilidade nas quais bilhões de pessoas, “imagem e semelhança do Criador”, se encontram no mundo e precisam ser resgatadas em seus direitos para que “tenham vida em abundância”. Claro que, não compete a Igreja tirar essas pessoas da sua miserabilidade, mas compete, sim, a ela, ser sinal e instrumento profético junto a estas, a partir da sua própria missão evangelizadora, despertando nelas, como filhas do Deus da vida, para que se tornem protagonistas da sua própria existência na luta por seus direitos, pela justiça e pela transformação do meio onde vivem. Isso significa dizer que o processo de evangelização, mais que uma catequese e celebração do culto, deve, a partir destes, provocar um modo de vida, como na Igreja primeira.

Deste modo, no meu curto entendimento, a questão da “Opção pelos pobres” é clara em toda a Escritura (se tomarmos já no AT o livro do Êxodo, por exemplo, vemos o próprio Deus tomando “partido” pelos pobres, pelos escravizados e se fazendo entre estes, para provocar todo um processo de libertação. No NT, quando Jesus, retomando Isaías, assume-se missionário, é enfático, revelando a sua postura diante de uma realidade cruel de exclusão e, como o Pai, toma também “partido”, colocando-se ao lado dos pequeninos do Reino: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos presos e, aos cegos a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça da parte do Senhor” (Lc 4, 18-19). Seria interessante percebermos que Jesus não diz para anunciar “preferencialmente” a Boa Nova aos Pobres. Assim, logo concluímos que, se formos fiéis ao Evangelho, a Opção pelos Pobres não pode ser “maquiada”, porque ela é uma Opção de vida. É manifestar que se tem um lado, apesar de ser para todos, como Jesus, que tinha consciência do Seu compromisso com os pobres, apesar de não rejeitar sentar-se à mesa dos ricos, desde que estes se convertessem, como nos deixou claro, no caso de Zaqueu. Logo, a Igreja afirmar a Opção pelos pobres, que brota da Sagrada Escritura e da presença e ação de Jesus de Nazaré (desde a manjedoura, passando por todo o seu caminho missionário, sobretudo nas aldeias e periferias da existência humana, incluindo na vida os excluídos do Seu tempo e nos reafirmando o objetivo de sua vinda ao mundo: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” - Jo 10,10, até o Calvário, quando entrega Sua vida por causa dessa missão entre os pobres - condenado como herege por Sua Igreja e politicamente como sublevador por defender a vida dos mais pequeninos), reafirma sua nítida missão de portadora e anunciadora deste Evangelho, revelando ao mundo sua fidelidade a Jesus de Nazaré.

NECESSIDADE DA VOLTA ÀS RAÍZES PARA COMBATER A PRAGA DO CLERICALISMO

O Papa Francisco tem, então, nos chamado a atenção dessa necessidade de uma “volta às raízes”, incitando a sairmos das “sacristias empoeiradas” para irmos às “periferias existenciais” (cf. Evangelii Gaudium). Ele deseja uma Igreja sempre em saída, pobre, que vá ao encontro das pessoas em suas realidades. Também tem manifestado com veemência sua preocupação com alguns muitos desafios que a Igreja vem enfrentando diante do mundo hodierno e, que tem atrapalhado o processo de evangelização. São as “pesadas e pouco eficazes estruturas”, com seus vícios, como por exemplo, a volta a um clericalismo exacerbado, criando uma verdadeira “casta” que descaracteriza os pastores do povo de Deus, colocando-os numa postura de “meros administradores” ou “funcionários do Sagrado”, tornando a Igreja uma simples “alfândega burocrática”, como nos chama a atenção o próprio Papa. Este câncer religioso tem levado a Igreja a uma distância terrível dos pobres, dos sofredores, das pessoas mais simples, contradizendo o que ela mesma anuncia e é sua missão. No entanto, a questão da proximidade com os pobres não se dá apenas pela doação de “esmolas”, mas reintroduzindo-os na Comunidade dos fiéis, independentemente de sua condição, tal modo que venham a se sentirem acolhidos e amados. Como diz o Papa Francisco, a Igreja tem que “falar aos corações com a ternura de mãe” e seja um espaço como “uma verdadeira casa paterna” onde os pobres, os pecadores, os indigentes e os “não ser” possam ser acolhidos para sentirem o carinho que Deus tem por eles.

Segundo Francisco, “o clericalismo é uma verdadeira perversão na Igreja. O pastor tem a capacidade de ir à frente do rebanho para mostrar o caminho, ficar no meio do rebanho para ver o que está acontecendo dentro dele e também ficar atrás do rebanho para garantir que ninguém fique para trás. Já o clericalismo exige que o pastor fique sempre na frente, estabeleça uma rota e puna com excomunhão quem se desvia do rebanho. Em suma: é precisamente o oposto do que Jesus fez. O clericalismo condena, separa, frustra e despreza o povo de Deus” (Papa Francisco, 5 de setembro de 2019, diálogo com os Jesuítas de Moçambique e Madagáscar: https://www.laciviltacattolica.it/articolo/la-sovranita-del-popolo-di-dio/ ).

Infelizmente, esse é o modelo que nos últimos tempos, apesar de Francisco, boa parte da Igreja parece ter assumido. Vemos com tristeza, com suas exceções, o caminho que vem se percorrendo e que reflete essa realidade “ante evangélica”. Se olharmos bem, os sinais são claros: das vestes clericais às pomposas liturgias distantes da realidade do povo onde tudo se revela, menos a Jesus Cristo pobre, missionário dos pobres; das estruturas sofisticadas dos templos bem ornados e com ricas alfaias às pessoas que compõem o culto e que ocupam sempre os primeiros lugares e onde, normalmente, os pobres não se sentem ali incluídos; das formações alienantes e às vezes até contrárias ao Ensino Social da Igreja e do próprio Papa Francisco (recheadas pela teologia da prosperidade e atualmente incrementadas pela dominiologia neopentecostal) às práticas que indicam tanta falta de acolhimento, onde a lei pesa mais que a Palavra de Deus, entre outras questões. Resumindo: É necessário escutar os apelos de Francisco, do Ensino Social da Igreja, do próprio Evangelho e o gemido dos empobrecidos e reconhecermos que há uma distância efetiva entre esse modelo de Igreja e a realidade social, política e econômica da grande maioria do povo de Deus, onde os pobres não são contados e, o pior, não há preocupação alguma em introduzi-los no meio da Comunidade dos fiéis e da sociedade. Esse modelo contradiz o Concílio Vaticano II, as Conferências Episcopais e o próprio Evangelho. O “homem da mão seca” que trata o Evangelho, símbolo dos excluídos e excluídas do Templo, das Sinagogas e da Sociedade, continua excluído da vida, à margem do que deveria ser seu espaço, em primeiro lugar, como quis Jesus, que o introduziu no centro da vida da comunidade.

PASTORAIS SOCIAIS E SERVIÇOS APROXIMAM A IGREJA DOS POBRES

Entretanto, por outro lado, não podemos negar o esforço de boa parte das Pastorais Sociais, Serviços e Movimentos que tentam traduzir o Evangelho em suas ações, tentando aproximar a Igreja dos mais vulnerabilizados e torná-los partícipes na caminhada, através de um processo de evangelização que leva em conta a sua realidade e que se soma às suas lutas por direitos e reconhecimento na sociedade para que sejam respeitados. No modelo clerical, no entanto, muitas vezes falta, pela parte institucional, o devido reconhecimento, apoio e envolvimento. Não poucas vezes, aqueles que atuam diretamente nesse meio são tratados como de “terceira categoria” e são renegados por parte da própria Igreja, acusados de agir não pela imposição do Evangelho e do Ensino Social da Igreja, mas por ideologias, por questões partidárias ou algo que o valha.

Oxalá um dia essa Igreja em Saída, que tanto quer Francisco, revele-se e se disponha a ir às periferias humanas e geográficas para ser presença profética, “moldando”, como lá nas origens, um modo de vida, uma nova e antiga cultura, carregada de humanidade, de solidariedade e de amor profundo junto daqueles que já estão cansados de esperar, como nos alerta o Papa Francisco, quando de sua visita ao Brasil, por ocasião da XXVIII Jornada da Juventude, no Rio de Janeiro, em 2013: “Faz falta uma Igreja que não tem medo de entrar na noite escura deles. Precisamos de uma Igreja capaz de encontrá-los no seu caminho. Precisamos de uma Igreja capaz de inserir-se na sua conversa. Precisamos de uma Igreja que saiba dialogar com aqueles discípulos, que, fugindo de Jerusalém, vagam sem meta, sozinhos, com o seu próprio desencanto, com a desilusão de um cristianismo considerado hoje um terreno estéril, infecundo, incapaz de gerar sentido”:


UMA IGREJA POBRE E PARA OS POBRES É UMA IGREJA DOS MÁRTIRES DA CAMINHADA

Todavia, devemos ter claro que uma Igreja pobre e próxima dos pobres nas suas lutas, incomoda muita gente, interna e externamente (vejamos, como exemplo concreto, a atuação da Paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, na cidade de São Paulo, na qual o seu Pároco, Pe. Júlio Lancellotti, atua junto à população em situação de rua), correndo o risco sempre da perseguição. Assim, ao longo da história secular da Igreja presenciamos tanto martírio. Uma Igreja dos pobres e para os pobres suscitará sempre o ódio, a aporofobia por parte dos ricos e opressores que preferem “manter a ordem e o progresso” não interessando a eles a vida destes. Porém, também devemos ter claro que, uma Igreja sem ser perseguida e sem martírio, indica acomodação ao sistema opressor, dos quais os pobres são vítimas, levando a Igreja à infidelidade ao Evangelho e ao seu próprio fundador que também foi mártir por se colocar ao lado dos pobres. Como nos lembra o dominicano, Frei Beto, devemos ter claro essa consciência e entender a “causa mortis” de Jesus: “Ele não morreu de dor de barriga e nem de uma ‘barruada’ de camelos nas ruas de Jerusalém, mas sim se tornou um preso político que foi condenado, torturado e morto por causa da sua postura no meio dos mais pobres e excluídos do Seu tempo”.






Francisco Adilson da Silva – Diácono da Arquidiocese de Natal
Coordenador Executivo do Serviço de Assistência Rural e Urbano- SAR

sábado, 12 de outubro de 2024

UMA IGREJA QUE NOS DEIXA COM MUITAS INTERROGAÇÕES NOS TEMPOS ATUAIS

Por Diác. Adilson da Silva

“De fato, do mesmo modo que o corpo sem o espírito é cadáver, assim também a fé: sem as obras ela é cadáver” (Tg 2, 26)

A ação pastoral da Igreja é feita por pessoas, pelos seguidores e seguidoras de Jesus Cristo. Entretanto, não é mera ação humana, pois, conta com o DINAMISMO DO ESPÍRITO SANTO e a GRAÇA DE DEUS que nos sustentam na caminhada, não obstante nossas fraquezas, limitações e todas as contingências que possam existir. Deste modo, a ação pastoral deve ser pensada, planejada, refletida e aplicada na vida da Igreja e, consequentemente na vida das pessoas, para que ela possa ser verdadeiramente sinal de Jesus Cristo no meio do mundo, sobretudo junto aos mais simples e vulnerabilizados.

A presença da Igreja no mundo se dá através da administração dos Sacramentos, sobretudo, da “Eucaristia, Fonte e Ápice de toda a vida cristã”. Também se faz por sua ação missionária e pastoral, através de tantos grupos, pastorais, movimentos, serviços e de tantas formas de devoção popular.

No meio dos mais vulneráveis e empobrecidos se faz concretamente pela ação da caridade, através de uma ação social que deve superar todo e qualquer assistencialismo que leva à dependência, à acomodação e aos vícios. O próprio agir social da Igreja deve trazer o rosto acolhedor de Jesus e sua obra evangelizadora e vive versa, resgatando a vida e oferecendo novas oportunidades para que esta seja colocada ao “centro”, retirada da “margem” da vida, como fez Jesus ao chegar naquele sábado na sinagoga e em tantos sinais que Ele realizou.

Para que a Igreja execute assim sua missão no mundo, ela precisa então planejá-la. Contudo, não basta apenas “planejar” sua ação. Os opressores, o grande capital, o sistema financeiro cruel e satânico, a indústria bélica e tantos outros órgãos que destroem a vida humana e do planeta, também planejam e, planejam muito bem suas ações nefastas. A Igreja deve se preocupar “como planejar”. Se a Igreja, enquanto comunidade dos seguidores de Jesus de Nazaré não o fizer de forma participativa, colegiada, comunitária, dentro de um espírito sinodal, exercitando sua diocesaneidade e, por sua vez, a paroquialidade que deve envolver de perto todos os agentes missionários/pastorais, presta um desserviço e se torna incompatível com o modelo de Igreja proposto pelo último Concílio (Vaticano II) e com o próprio discipulado de Cristo.

O agir pastoral da Igreja que deve ser pensado, planejado em comunhão, deve ser também rezado, pois antes de ser ação humana é ação conduzida pelo Espírito Santo. Isso é, num planejamento pastoral, não bastam as técnicas metodológicas e a eloquência dos assessores/as e todos os instrumentos e parafernálias que atualmente usamos. Num modelo eclesial participativo, de comunhão, missionário, as técnicas são apenas uma forma e o objetivo vai se alcançar com retidão de consciência, “escutando a voz de Deus”, através da oração e na contemplação de tudo o que se faz, colocando-nos ao dispor para que Ele faça em nós a Sua vontade.

Neste sentido, não dá para se fazer planejamento pastoral de uma Igreja Particular ou mesmo de uma Paróquia ou até de uma Pastoral, em meio dia, um dia ou dois, na correria e, tendo em primeiro lugar, pelos gestores, a preocupação meramente com “os gastos” que um momento deste impõe. Aliás, devemos ter clareza e consciência que ação pastoral não é gasto. É investimento. Uma Igreja verdadeiramente formada pelos seguidores e seguidoras de Jesus, o processo de formação, de evangelização, de missão é “investimento pastoral” e não mero “gasto”. Há que se preocupar, num modelo condizente com a proposta do Reino, com a formação mais do que com a estrutura e, não ao contrário, como vemos atualmente. Temos hoje “ricos templos” ornados com mármores e porcelanatos, riquíssimas alfaias, cálices e ostensórios de ouro, porém “cheios de mentes e corações vazios” que, sequer, conseguem enxergar no outro, a presença real de Jesus Cristo e ainda exercita uma aporofobia satânica e faz coro aos crápulas nazifascistas que propagam a eliminação do outro (“bandido bom é bandido morto”), de quem pensa diferente, que preferem, em vez de investir nos processos educativos a criminalizar as pessoas, as lideranças que lutam por direitos, entre outras situações que se opõem à própria fé cristã.

Com certeza, um modelo eclesial aberto à “koinonia” e à ação do Espírito Santo, o planejamento e a ação pastoral/missionária levarão em conta e, em primeiro lugar, o “evangelizar os pobres”, o “curar os cegos, os surdos, os mudos” e “libertar os oprimidos”. Isso é: o planejamento pastoral deverá levar em conta um processo missionário de evangelização, onde os pobres encontrem lugar, não apenas para a eles serem distribuídos sopões ou dadas esmolas, mas onde sejam levados em conta e estejam nos primeiros lugares da vida da Igreja de Cristo, em vista de sua LIBERTAÇÃO INTEGRAL.

Deste modo e, se assim agirmos, a ação evangelizadora da Igreja trará em si e estará sempre presente, o Pilar da Caridade, com todas as ações sociais de promoção e libertação da pessoa humana e do cuidado com a Casa Comum, na defesa da vida plena de todos. Isso implicará numa CONVERSÃO PERMANENTE E CONTÍNUA, como nos diz e recomenda a Conferência Latino-Americana de Aparecida, conformando-nos à práxis de Jesus, na consciência de que estamos sob o agir e o dinamismo do Espírito Santo.

Neste sentido, olhando a Igreja Universal, vemos a figura de Francisco, e nele, vemos com alegria o rosto desta Igreja amante dos pobres, preocupada com a vida, profética e profetisa da esperança. Vislumbramos também em algumas Igrejas Particulares mundo à fora, alguns sinais deste modelo que Francisco tem feito ecoar. Todavia, assombra-nos e deixa-nos perplexos, no geral, a percepção de uma Igreja, às vezes um tanto míope, medrosa, escondida e fechada em si mesma, preocupada mais com os ritos (suntuosos ritos que nos fazem lembrar o mundo medieval) do que com o testemunho real que provoque e gere um modo de vida parecido com o de Jesus, como expressa São Paulo na Carta aos Filipenses (“... tende em vós os mesmos sentimentos que há em Cristo Jesus...”). Em certas ocasiões, parece-nos mais amante do Direito Canônico do que da Palavra de Deus, por vezes, agindo mais como empresa do que como uma “comum-unidade” dos fiéis e seguidores/as de Jesus... Causa-nos uma sensação de tristeza, a indiferença ao sofrimento humano e o silêncio diante das assombrosas injustiças dos poderosos que agem abertamente contra a justiça e o direito dos pobres. Dói o sentimento do não profetismo (“Não deixe a profecia morrer” – D. Helder Câmara) e a aparência de que, em certas horas é mais aliada a certas classes políticas, aos ricos e poderosos, em detrimento da sua própria missão...

O sentimento real é de que, nestes atuais dias, a Igreja tem nos deixado com muitas interrogações. É preciso exercitarmos nossa coragem profética para, com caridade e amor, reconhecermos e dizermos isso, até porque fazemos parte dessa história. Nossa reflexão não é para sermos contra a Igreja, mas como cristãos reconhecermos nossas falhas, limitações e pecados e adentrarmos nesse processo contínuo de conversão que o Evangelho nos impõe. É preciso rezarmos o tempo de hoje e buscarmos nele os sinais de Deus nessa história...



Diácono Francisco Adilson da Silva
Coordenador Executivo do Serviço de Assistência Rural e Urbano-SAR
Arquidiocese de Natal

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

A IGREJA há muito que se "endireitou"

Por Diac. Adilson da Silva

Às vezes não dá nem para diferenciar com o chamado neopentecostalismo evangélico... A profecia institucional morreu com os bispos que tentaram levar adiante o VAT II e as nossas Conferências LA, e hoje temos algumas vozes proféticas isoladas. São algumas poucas exceções que se aliam na prática a Francisco ( Muitos figuram apenas no discurso parecidos com "professores universitários" - nada contra os professores, mas lembro que essas "aulas" deveriam estar carregadas de testemunhos pelo fato de serem "pastores"). 

O que mais vemos hoje são "Príncipes" preocupados com suas esplêndidas vestes e um ritualismo romano - que não se vê nem mais na propria Roma - distante de Jesus de Nazaré e, muitos aliados e alinhados com essa direita imbecil, cafajeste, negacionista e nazifascista que carrega um projeto de morte. O que dizer dessa Igreja de Cristo? É triste vermos atualmente a preocupação com o material, parecendo ser a Igreja uma mera empresa do mundo civil. 

A vivência do "pastoral e da missão (caracterizados e personificados pela Pessoa de Jesus de Nazaré, como esperança dos pobres de Javeh) cada dia se distanciam da realidade. Hoje muitos têm medo de falar (quanto mais viver) sobre a "opção evangélica pelos pobres", sobre as comunidades eclesiais de base que se tornaram "palavrões " para certos principescos. 

Isso reflete uma grande contradição e revela essa aliança promíscua da Igreja com a ultradireita trampista bozonazifascista, iluminada por uma teologia da prosperidade e agora pela teologia do dominio. Isso dói no coração da própria Igreja. E ainda tem mais. Fazer essa reflexão nos põe, por estes principescos como "inimigos da Igreja", coisa que alguns idiotas (de coroinha a cardeais) chegam a aliarem-se até contra Francisco, chamando-o de pseudo Papa, herege, comunista... Lamentável vermos essa anomalia eclesial.






Diácono Francisco Adilson da Silva
Coordenador Executivo do Serviço de Assistência Rural e Urbano-SAR
Arquidiocese de Natal

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