A Palavra que nos é proclamada hoje revela duas faces inseparáveis do coração de Deus: a misericórdia que escuta a súplica humana e o chamado radical ao seguimento.
Na primeira leitura, vemos Abraão em diálogo com Deus, quase como um advogado da humanidade. Ele ousa negociar com o Altíssimo, não para obter benefícios pessoais, mas para salvar os justos no meio dos pecadores. Essa cena comovente revela a confiança de quem conhece o coração de Deus: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18,25).
Abraão nos ensina que orar é também interceder pelos outros, especialmente pelos que se afastam do caminho. E aprendemos que Deus não se alegra com a perdição do injusto, mas busca sempre brechas para manifestar sua misericórdia.
O salmo ecoa essa verdade: Deus não nos trata segundo nossos pecados, mas conforme sua ternura. Quantas vezes esquecemos esse amor gratuito? Este é o tempo de proclamar a misericórdia do Senhor com nossa vida e nossas palavras, levando cura e reconciliação.
No Evangelho, Jesus surpreende ao não aceitar o entusiasmo impensado do escriba: “Mestre, eu te seguirei para onde quer que fores!” Ao invés de acolher esse impulso, o Senhor revela a seriedade do discipulado: seguir Jesus não é conforto, mas cruz; não é segurança, mas fé; não é adiar, mas responder hoje.
Ao outro discípulo, que pede para enterrar seu pai, Jesus responde com uma frase desconcertante: “Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos.” Aqui o Senhor não está desprezando o luto, mas afirmando a primazia do Reino. Ele nos chama à vida plena, que exige ruptura com aquilo que paralisa nossa missão.
Que esta liturgia nos reacenda o zelo, a escuta amorosa e o ardor missionário. E que, sustentados pela misericórdia divina, tenhamos coragem de dizer: “Senhor, eu te seguirei” — e fazer disso não só uma frase, mas um estilo de vida.
Amém.

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