Hoje, a Igreja celebra a Solenidade dos Santos Pedro e Paulo — colunas da fé, homens de coragem, que deram a vida pelo Evangelho. Um pescador e um perseguidor convertido, unidos não por interesses pessoais, mas por uma missão: anunciar o Reino de Deus com ousadia, pobreza e verdade.
Enquanto isso, no altar profano da política brasileira, uma nova liturgia foi celebrada esta semana: o aumento do número de deputados federais de 513 para 531. Um acréscimo de 18 cadeiras, aprovado com o mínimo de votos necessários no Senado, sob o pretexto de “atualizar a representação proporcional dos estados”. Mas o que se viu foi mais um capítulo do velho evangelho do “jeitinho brasileiro”: em vez de redistribuir as vagas existentes, como determinava o STF, preferiu-se criar novas — para que ninguém perdesse, e todos ganhassem um pouco mais.
Pedro e Paulo enfrentaram impérios. Nossos legisladores, ao que parece, enfrentam apenas o espelho. Enquanto os apóstolos se esvaziavam para servir, muitos hoje se multiplicam para manter privilégios. O impacto estimado? Cerca de R$ 95 milhões por ano. E isso sem contar o efeito cascata nos legislativos estaduais, que também poderão aumentar suas cadeiras.
A pergunta que ecoa é: precisamos mesmo de mais representantes ou de representantes melhores? Pedro não tinha gabinete. Paulo não dispunha de cota parlamentar. Mas ambos tinham autoridade moral, coerência e zelo. E isso, convenhamos, não se compra com emenda nem se conquista com voto de bancada.
A solenidade de hoje nos convida a olhar para o essencial. A política, como a fé, deveria ser serviço. Mas quando se torna palco de vaidades e interesses, perde sua alma. Que Pedro e Paulo intercedam por nós — para que o Brasil reencontre líderes que, como eles, estejam dispostos a dar a vida pelo bem comum, e não a multiplicar cadeiras para garantir conforto.
Porque, no fim das contas, doze bastaram para mudar o mundo. E nós, com 531, ainda tropeçamos no básico.

.png)