sábado, 16 de março de 2024

A alegria no seguimento de Cristo

Por Dom João S Cardoso

Frequentemente, enfatizamos apenas o aspecto da cruz, da renúncia, do sacrifício e doação de si no seguimento a Nosso Senhor Jesus Cristo. É verdade que Jesus não enganou seus discípulos a respeito das consequências do seguimento e, claramente, afirmou: “Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9, 23). Entretanto, o discipulado cristão não implica apenas o aspecto da cruz, mas também a alegria de estar com Jesus e de comunicá-la aos outros, pois, como afirma o Documento de Aparecida (DA, n. 23), “ser cristão não é uma carga, mas um dom”.

O Documento de Aparecida recupera a alegria no seguimento de Jesus Cristo. De fato, Jesus não é uma ameaça para o homem, pelo contrário, é condição de sua realização e felicidade. Também o Papa Francisco, na "Evangelii Gaudium" (EG), resgata a importância da alegria no anúncio do Evangelho, propondo uma nova etapa evangelizadora marcada pela alegria (EG 1). Essa alegria, que preenche os corações daqueles que encontram Jesus, é transformadora e nos liberta do pecado, da tristeza, da acídia, do vazio interior e do isolamento. Por isso, o cristão não deve assumir o discipulado como um peso, como um fardo difícil de suportar, mas viver com leveza e suavidade, pois Nosso Senhor nos garante que seu jugo é suave e seu fardo é leve (Mt 11, 30).

Consequentemente, como diz o Papa Francisco, “um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral” (EG, 10). É preciso recuperar o fervor de espírito e “a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas! [...] E que o mundo do nosso tempo possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo” (EG 10).

Mas, então, de que se trata essa alegria? Ela nasce da experiência de sentir-se amado por um Deus, que de fato, nos ama incondicionalmente. Ou ainda como afirma o Documento de Aparecida: “A alegria do discípulo não é um sentimento de bem-estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e o capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus. Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DA 32).

A alegria do Evangelho não é um sentimento passageiro ou superficial, mas uma fonte de vida que brota do encontro pessoal com Jesus. É uma alegria que nasce da missão e transcende as circunstâncias externas e se manifesta mesmo nas situações mais difíceis da vida. Como discípulos de Cristo, somos chamados a viver essa alegria em todos os momentos, mesmo quando enfrentamos tribulações e desafios (EG, n. 2-4).

No entanto, o Papa Francisco reconhece que muitos cristãos estão perdendo essa alegria e caindo na armadilha da acídia, do mundanismo espiritual e das divisões internas na comunidade. A acídia, como a tristeza interior que resulta da recusa dos bens espirituais, pode levar à inação ou a um ativismo desenfreado, impedindo-nos de viver plenamente nossa vocação cristã. O mundanismo espiritual, por sua vez, se disfarça sob uma aparência de religiosidade, mas na verdade busca apenas a própria glória e o bem-estar pessoal (EG 81-84; 94).

Também, as divisões e ódios entre os cristãos são uma triste realidade que compromete o testemunho, a credibilidade e a missão da Igreja. Em vez de nos unirmos para anunciar o Evangelho, muitas vezes nos encontramos em conflito uns com os outros, alimentando ressentimentos e divisões que enfraquecem a comunidade cristã. “Além disso, alguns deixam de viver uma adesão cordial à Igreja por alimentar um espírito de contenda. Mais do que pertencer à Igreja inteira, com a sua rica diversidade, pertencem a este ou àquele grupo que se sente diferente ou especial” (EG 98).

Tais desafios nos impelem a cultivar a alegria do Evangelho, mesmo nas situações difíceis, promovendo a reconciliação, o perdão e a comunhão fraterna, resistindo à tentação da inveja, do julgamento e do ódio. É uma alegria missionária que nos convoca a ser testemunhas do amor de Deus, irradiando a luz de Cristo nas trevas do mundo e compartilhando essa alegria com todos que cruzamos em nosso caminho.





Dom João Santos Cardoso
Arcebispo Metropolitano de Natal

NOTÍCIAS DA COMISSÃO DIACONAL

NOTÍCIAS DA ARQUIDIOCESE DE NATAL

NOTÍCIAS DA CNBB

NOTÍCIAS DO VATICANO