A filosofia fundamental une a fé cristã e a razão humana, mostrando que acreditar em Deus é um ato inteligente e não uma escolha cega. Segundo Ratzinger (2005), o cristianismo antigo rejeitou os mitos e escolheu a razão, focando no Logos (a Razão criadora) e no "Deus dos filósofos". Para ele, a filosofia garante que a religião não vire um mero sentimento, pois a fé precisa da verdade e vê em Jesus Cristo a própria Verdade em forma humana. Por outro lado, Fisichella (2017), foca nessa filosofia como uma ponte de diálogo entre a revelação de Deus e a inteligência do homem. Ele defende que a fé deve responder às grandes dúvidas humanas, como o sentido da vida e da dor, usando ferramentas lógicas para provar que ter fé é uma atitude totalmente razoável e digna.
Para Fisichella (2000, p. 11) a Teologia Fundamental é “o estudo do evento da revelação cristã e de sua credibilidade”, pois, como disse o apóstolo missionário “e eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. E a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder; para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus." Cf. 1 Cor 2, 3-5.
Afirma Ratzinger (2023, p. 23), que “o termo apologética é definitivamente abandonado e substituído pela Teologia Fundamental, disciplina que se tornou, assim, um dos eixos da formação teológica”.
Diz Rudy Albino que Ratzinger começara a sua vida dedicando-se a Teologia Fundamental, tratando das relações entre a fé e a razão, que culminou a elevar o mesmo a ser professor catedrático da Universidade de Bonn na Alemanha, também foi ele que se dedicou quase exclusivamente a Dei Verbum no Concílio Vaticano II.
Ao tratar do Deus da fé e o Deus dos filósofos, Ratzinger dialoga com Santo Tomás de Aquino, Blaise Pascal e Emill Brunner. A Teologia Fundamental, para Eduardo Sell, “é uma disciplina de fronteira na qual a relação entre a fé e a razão – ou da credibilidade de fé, para usar uma fórmula de síntese”, a qual constitui uma de suas características fundamentais.
Para Ratzinger (2023, p. 15), o “Deus da fé e o Deus dos filósofos podem lidos, estudados, tanto pelo ângulo da fé (teologia), quanto pelo âmbito da razão (filosofia)”, pois, para ele sempre existirá uma forte relação entre a “faculdade imanente da razão humana e a abertura transcendente que o ato de crer possibilita”.
Ratzinger (2023, p. 16), começa a estudar, refletir, aprofundar-se na Teologia Fundamental sob a espiritualidade de São Boaventura, e sob os estudos de Emill Brunner, o personalismo filosófico de Max Scheler, a tradição teológica de Santo Tomás e de Santo Agostinho. São profundas as suas reflexões, em especial sobre a “Introdução ao cristianismo” publicado em 1968. Para mim, uma opinião particular, Ratzinger é o maior filósofo da contemporaneidade.
Ainda segundo Ratzinger (2023, p. 18), os combates ideológicos sempre estarão presentes no mundo, o que nos obriga a sempre estudar, aperfeiçoar, escrever e publicar obras, pensar em formação permanente como nos lembra sempre Dom João Santos Cardoso, e foi isso que ocorrera nos tempos da “suma contra os gentios” de Santo Tomás de Aquino, eclodindo também na Era Moderna, quando a Teologia Católica se “vê confrontada com a Reforma Protestante e o Iluminismo” fazendo crescer a Apologética como “disciplina específica da Teologia”.
Epiteto afirmava que “a condição característica de um filósofo é a seguinte: ele espera toda vantagem e todo mal de si mesmo”, o que nos obriga a ler, estudar e aumentar a fé pela razão como nos mostra Santo Agostinho em uma conversão intelectual.
Logo, o Deus da fé e o Deus dos filósofos, na visão de Ratzinger (2023, p. 21), poderia ser definido com esta expressão sua de que “razão e fé não formam, portanto, um binômio, mas uma unidade”.
REFERÊNCIAS
EPITETO. O manual de Epiteto e uma seleção de discursos. Jandira,
SP: Principis, 2021.
FISICHELLA, Rino. Introdução a teologia fundamental. Tradução de João Paixão Netto. 5. ed. São Paulo: Loyola, 2000.
LATOURELLE, René; FISICHELLA, Rino (org.). Dicionário de teologia fundamental. Tradução de Luiz João Baraúna. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
RATZINGER, Joseph. O Deus da fé e o Deus dos filósofos: uma contribuição para o problema da teologia naturalis. Rio Bonito: Escola Ratzinger & Editora Benedictus, 2023.
RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo: palestras sobre o Credo Apostólico. São Paulo: Loyola, 2005
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