Nesta semana que marca a Exaltação da Santa Cruz, o Brasil vivenciou um momento sem precedentes em sua história republicana. Pela primeira vez, um ex-presidente da República foi condenado por tentativa de golpe de Estado, junto com militares e outros colaboradores, recebendo uma pena de 27 anos e 3 meses de prisão. O simbolismo desta coincidência temporal não poderia ser mais claro: enquanto a liturgia católica celebra a transformação da cruz, de instrumento de morte em sinal de vida, o país testemunha como suas instituições democráticas podem transformar uma ameaça mortal à liberdade em fortalecimento da justiça.
Assim como no relato bíblico de Números, onde serpentes venenosas atacaram o povo de Israel no deserto, nossa democracia foi atacada pelo veneno da mentira, da conspiração e da sede de poder. O julgamento histórico que culminou na condenação revelou a extensão da trama golpista: documentos e áudios/vídeos que não deixam dúvidas, planos de assassinato de autoridades, tentativas de cooptação das Forças Armadas. Era o veneno circulando pelas veias da República.
Mas, como Moisés ergueu a serpente de bronze no deserto para curar os mordidos, nosso sistema judiciário ergueu a verdade como antídoto. Não por acaso, um dos magistrados que participou ativamente do julgamento, tornou-se figura emblemática desta resistência institucional. Sua firmeza em não se curvar às pressões e ameaças ecoa a lição paulina da humildade que se transforma em exaltação: quem serve à justiça, ainda que incompreendido, será elevado pela história.
A liturgia deste domingo nos ensina que Cristo, sendo Deus, não se apegou à sua condição divina. Ele se esvaziou, assumiu a condição de servo. Há aqui uma lição fundamental para a política democrática: o poder verdadeiro não está em dominar, mas em servir. A cruz de Cristo é apresentada como o trono onde o Rei do universo reina com os braços abertos, acolhendo a humanidade ferida.
Esta imagem contrasta dramaticamente com o projeto autoritário desbaratado pelas investigações. Onde Cristo acolhe, o autoritarismo exclui. Onde Cristo serve, o populismo se serve. Onde Cristo se esvazia de si mesmo, o narcisismo político se infla de arrogância. O Brasil que deu exemplo ao mundo nesta semana foi o Brasil dos braços abertos da justiça, não dos punhos cerrados da opressão.
São Paulo nos apresenta o mistério da cruz como um caminho de humildade. E não há humildade maior para um sistema político do que reconhecer que ninguém, absolutamente ninguém, está acima da lei. Nem ex-presidentes, nem militares, nem poderosos de qualquer estirpe. A grandeza de uma democracia madura está precisamente nesta capacidade de julgar a si mesma, de aplicar a justiça mesmo quando isso causa dor e divisão.
O julgamento desta semana não foi uma vitória partidária, mas uma vitória institucional. Mostrou que nossas instituições, por mais imperfeitas que sejam, possuem anticorpos contra o vírus autoritário. Como a cruz, que era símbolo de humilhação e tornou-se emblema de glória, nosso sistema democrático transformou a tentativa de golpe em fortalecimento do Estado de Direito.
Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único, nos diz os Evangelhos. Este amor sacrificial é o oposto exato da mentalidade golpista, que destrói para se manter no poder. O amor verdadeiro, como nos ensina a liturgia, é sacrificial. Amar é doar-se, é perder para ganhar, é morrer para viver.
A política democrática autêntica também exige este desprendimento: perder eleições para que a alternância seja preservada; aceitar críticas para que o debate seja enriquecido; submeter-se ao escrutínio para que a transparência prevaleça. Quem não consegue fazer esses "pequenos sacrifícios" da vida democrática revela não estar preparado para exercer o poder em uma República.
A cruz erguida por Moisés no deserto tinha uma função reguladora: separava os que criam dos que duvidavam, os que se curavam dos que pereciam. Nossas instituições democráticas exercem função similar: regulam o poder, separam o legítimo do ilegítimo, curam a sociedade dos vícios autoritários.
O Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional, o Poder Executivo, a Imprensa livre, as Forças Armadas constitucionais, cada um desses poderes e contrapoderes funciona como uma "serpente de bronze" erguida contra o veneno da tirania. Não são perfeitos, mas são necessários. Não são infalíveis, mas são legítimos. E, como a cruz de Cristo, transformam instrumentos potenciais de opressão em garantias de liberdade.
Enquanto democracias ao redor do planeta enfrentam a ascensão de líderes autoritários que só pensam no seu bem-estar, à custa do povo humilde e necessitado, o Brasil ofereceu uma lição valiosa: é possível dizer não ao autoritarismo sem romper o tecido social. É possível julgar poderosos sem destruir a paz. É possível defender a democracia sem abandonar a esperança na reconciliação.
Como deixei claro inicialmente, este julgamento entrará para a história do nosso país não apenas pelos precedentes jurídicos, mas pelo exemplo moral. Mostrou que não devemos nos curvar nem nos deixar amedrontar diante das ameaças realizadas por pessoas inescrupulosas.
Ao contemplarmos a cruz neste domingo, não vemos apenas o crucificado, mas o rosto do amor. Ao contemplarmos nossa democracia após esta semana histórica, não devemos ver apenas instituições, mas o rosto da justiça. Ambas nos ensinam que o verdadeiro poder está no serviço, a verdadeira força está na verdade, a verdadeira vitória está na paz.
Que a cruz de Cristo seja nossa força para construir uma democracia cada vez mais justa. Que ela nos ensine a amar a liberdade até o fim, mesmo quando isso exige sacrifícios, mesmo quando isso causa incompreensão, mesmo quando isso parece humilhação.
Porque, como nos ensina a liturgia deste domingo da Exaltação da Santa Cruz, aquilo que o mundo vê como derrota pode ser, aos olhos de Deus e da história, a maior das vitórias. A democracia brasileira acaba de ser exaltada não apesar de suas imperfeições, mas através da coragem de se corrigir. Como a cruz de Cristo, ela se tornou, nesta semana memorável, não apenas instrumento de governo, mas sinal de esperança para todos os povos que amam a liberdade.
Esta crônica reflete sobre os acontecimentos históricos deste setembro de 2025, quando o Brasil deu exemplo ao mundo, condenando criminalmente um ex-presidente por tentativa de golpe de Estado, demonstrando a maturidade de suas instituições democráticas em um momento crucial para a preservação do Estado de Direito.
E para concluir, deixo claro que, não defendo posições ideológicas, nem tão pouco políticos, mas defendo o direito a liberdade de poder escolher a luta pelo bem-estar de todos, e não apenas de alguns, pois, Deus não faz acepção de pessoas, na verdade, ele acolhe a todos, seja você quem for, basta dizer, Jesus, eu te amo, e isso, nós devemos dizer não apenas da boca para fora, mas com gestos e atitudes.

