Apenas isso. Não buscava aplausos nem análise técnica; queria, simplesmente, ser lido. E talvez aí resida uma das verdades mais humanas da escrita: quem escreve deseja encontrar um leitor, um coração que acolha. Não há solidão maior para um texto do que não ser lido; igualmente, não há alegria maior para quem escreve do que perceber que suas palavras encontraram morada em alguém.
Li o poema com atenção. Depois reli. À medida que avançava, fui sendo surpreendido. Num primeiro momento, pensei tratar-se de um autor já consagrado. Havia ali algo da interioridade densa de Fernando Pessoa, como os pensamentos que habitam sem pedir licença; a delicadeza de Cecília Meireles e de Adélia Prado, onde o essencial se revela nas entrelinhas; e a intuição de Manoel de Barros, capaz de descobrir o extraordinário no cotidiano, no simples, no que passa despercebido e parece supérfluo.
Mas, ao reler com mais atenção, percebi que a autoria era dele. E então compreendi algo ainda mais precioso: ali não estava apenas a beleza da poesia, mas a memória viva de uma experiência. Não era um exercício literário; era vida tornada palavra.
O título — “Quando tudo ainda era silêncio” — já indicava o caminho: a travessia do não dito, ainda tentando aprender a ser nome. O título me remeteu imediatamente ao Gênesis, ao princípio de tudo. Antes de qualquer palavra humana, houve o silêncio primordial: a terra informe e vazia, as trevas cobrindo o abismo e o Espírito de Deus pairando sobre as águas. Não havia forma nem linguagem, mas um silêncio fecundo, carregado de sentido. Então Deus disse: “Faça-se a luz!”, e a luz se fez.
É nesse dinamismo que o poema se inscreve. Também ali, no início, tudo era silêncio: um sentimento ainda sem nome, uma presença intuída, mas não compreendida. Aos poucos, porém, o que era informe ganha contorno, o disperso se organiza e o silêncio se converte em palavra. “A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei” (Manoel de Barros).
O texto revela uma delicadeza rara. O sentimento não chega de forma ruidosa, mas se instala lentamente, até tornar-se presença constante, “um pensamento que não pede licença”. Trata-se dessas experiências profundas em que algo passa a habitar o interior, reorganizando afetos, memórias e sentidos.
Como na criação, também aqui há um processo: reconhecer, distinguir, nomear. O que antes era apenas intuição torna-se consciência; o que era silêncio interior transforma-se em linguagem. E, ao ser nomeado, passa a existir de modo novo. Dar nome é, de certo modo, participar do gesto criador.
Há, por fim, uma dimensão espiritual que atravessa discretamente todo o texto. Ao falar de encontro, de dom e de luz, ele nos conduz à fonte de tudo: Deus. Sem pretender fazer teologia, o poema acaba por testemunhar que, no fundo, todo amor verdadeiro aponta para Ele.
Ao fim, como no sétimo dia da criação, resta o repouso. Não um silêncio vazio, mas pleno, aquele que guarda, reconhece e agradece. Porque há experiências que, uma vez vividas, já não precisam ser explicadas. Basta acolhê-las. Tornou-se experiência, presença, memória viva. E isso para quem escreve e para quem lê já é tudo.
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