domingo, 20 de julho de 2025

Entre Marta, Maria e as Tarifas (Diác. Edson Araújo)

"E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa. E tinha esta uma irmã, chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém, andava distraída em muitos serviços..." (Lucas 10, 38-40)

Em pleno julho de 2025, enquanto o mundo observa perplexo a escalada de tensões entre Brasil e Estados Unidos, ressoa na memória a antiga história de duas irmãs que receberam um visitante ilustre em sua casa. Como em Betânia há dois mil anos, hoje assistimos ao mesmo dilema entre o fazer e o ser, entre o protocolo e a essência, entre as ocupações urgentes e as questões verdadeiramente importantes.

Donald Trump, de volta à presidência americana, assumiu o papel da Marta contemporânea - aquela que se afadiga com muitos serviços, que se ocupa obsessivamente com os afazeres da casa, que vê ameaças onde talvez haja apenas diferenças. Em sua carta dirigida a Lula, Trump anuncia uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, alegando tanto motivos comerciais quanto políticos - uma mistura peculiar que revela mais sobre suas próprias preocupações domésticas do que sobre as práticas comerciais brasileiras.

Como Marta, que reclamava de Maria estar sentada aos pés do Mestre enquanto ela trabalhava sozinha, Trump parece incomodado com o que percebe como passividade brasileira diante de questões que considera prioritárias. "A forma como o Brasil tem tratado o ex-Presidente Bolsonaro (...) é uma vergonha internacional", escreve o presidente americano, ecoando o protesto de Marta: "Senhor, não te importas que minha irmã me deixe servir sozinha?"

Mas Jesus, naquela casa de Betânia, ofereceu uma resposta que transcende os tempos: "Marta, Marta, andas ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada."

Por outro lado, o Brasil encontra-se numa posição curiosamente similar à de Maria. O governo Lula já trata as tarifas como realidade e, segundo fontes diplomáticas, vê pouca chance de recuo americano. Há uma quietude calculada na resposta brasileira, uma aparente serenidade que pode parecer passividade aos olhos ansiosos de quem está "afadigado com muitas coisas."

A carta de Trump revela as múltiplas preocupações de uma Marta presidencial: as questões comerciais "nosso relacionamento (...) tem estado longe de ser recíproco", as pressões políticas internas (defendendo Bolsonaro), as questões tecnológicas (criticando as decisões do STF sobre plataformas digitais). São muitos os serviços, muitas as ansiedades, múltiplas as tarefas que exigem atenção simultânea.

Contudo, na parábola original, Jesus não despreza o trabalho de Marta - ele apenas aponta para uma hierarquia de prioridades. Maria "escolheu a boa parte" não porque o serviço de Marta fosse desnecessário, mas porque havia compreendido qual era o momento para cada coisa. Havia um tempo para ouvir e um tempo para servir, um tempo para a contemplação e um tempo para a ação.

A questão que se coloca hoje, nesta crise diplomática que deixa "margem mínima para negociação" segundo analistas, é se ambos os países conseguirão discernir qual é verdadeiramente "a boa parte" neste momento histórico. Serão as tarifas e sanções cruzadas, essa correria ansiosa de Marta, ou será a paciência estratégica de Maria, que sabe quando é tempo de ouvir?

O economista Paul Krugman classificou as tarifas como "malignas e megalomaníacas", enquanto Alexandre Schwartsman observou que há "um viés político na decisão." São vozes que ecoam a suave repreensão de Jesus à Marta de todos os tempos: quando nos deixamos dominar pela ansiedade e pelas múltiplas preocupações, perdemos de vista o que realmente importa.

Enquanto isso, o Brasil parece haver escolhido a postura de Maria - pelo menos por enquanto. Manifestou "indignação" formalmente, anunciou tarifas recíprocas, mas mantém uma diplomacia que evita a escalada histérica. É uma aposta arriscada: será sabedoria contemplativa ou negligência perigosa?

A resposta, como na casa de Betânia, talvez não esteja em julgar quem está certo ou errado entre Marta e Maria, mas em compreender que tanto o serviço quanto a contemplação têm seu lugar e seu tempo. O que Jesus criticou em Marta não foi seu zelo pelo trabalho, mas sua ansiedade que a impedia de discernir as prioridades do momento.

Nesta encruzilhada vivida neste dias, com tarifas de 50% pairando sobre o comércio bilateral e sanções cruzadas envolvendo figuras como Bolsonaro e Moraes, cabe a ambos os países o discernimento fundamental: qual é, afinal, "a boa parte" que não lhes será tirada? Será a imposição de vontades pela força econômica, ou será a construção paciente de um diálogo que reconheça as diferenças sem transformá-las em instrumentos de guerra comercial?

Jesus, naquela tarde em Betânia, não despediu Marta nem menosprezou seu trabalho. Ele apenas a convidou a uma pausa para reconhecer que havia chegado um momento especial, uma oportunidade única que exigia presença, não apenas serviço. Talvez seja isso que falta nesta crise diplomática: a sabedoria para reconhecer que alguns momentos exigem mais escuta do que ação, mais paciência do que pressa, mais diplomacia do que tarifas.

A "boa parte" que Maria escolheu, e que não lhe foi tirada, foi estar presente no momento certo, com a atitude certa. Para Brasil e Estados Unidos, em meio às turbulências, talvez seja esta a lição mais necessária: discernir quando é tempo de servir e quando é tempo de ouvir, quando é momento de agir e quando é hora de refletir sobre o que verdadeiramente importa na longa jornada das relações entre nações irmãs.

Esta crônica foi baseada nos acontecimentos da semana de 15 a 20 de julho de 2025, quando as relações Brasil-EUA alcançaram um de seus momentos mais tensos em décadas, com a imposição de tarifas recíprocas de 50% e sanções diplomáticas cruzadas envolvendo questões comerciais, políticas e jurídicas.

E que Deus tenha compaixão de cada um de nós, assim seja!

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