segunda-feira, 27 de julho de 2026

O alerta sobre a verdade na encíclica Magnifica humanitas

Promulgação da Carta Encíclica “Magnifica humanitas” (@Vatican Media)

Com a evolução tecnológica, alguns desafios continuam nos desvirtuando de valores morais por causa de uma suposta superioridade técnica das novas gerações.

Por Dom Oriolo - Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG

As primeiras décadas do século XXI são marcadas por uma aceleração sem precedentes das transformações tecnológicas, impulsionadas pelo desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA), das plataformas digitais, das redes sociais e da economia de dados, um panorama que hoje se expande com o avanço da Internet das Coisas (IoT) e as promessas de conectividade extrema da rede 6G.

Grande parte dessas inovações emerge de ecossistemas tecnológicos altamente influentes, Apple, Meta, Microsoft, Google e outros, exercem impacto global sobre os modos de comunicação, de aprendizagem, de trabalho e de convivência social. Em um intervalo relativamente curto, essas tecnologias passaram a integrar praticamente todos os âmbitos da vida humana, modificando hábitos, comportamentos e formas de perceber a realidade.

Assim sendo, as descobertas do mundo digital vêm afetando o nosso desenvolvimento somático (obesidade e maturação cardiovascular), cognitivo (linguagem, concentração), intelectual (excesso de distração e escassez de conhecimento) e emocional (agressividade, ansiedade, isolamento atrás das telas e medo). Acima de tudo, esse cenário afeta o nosso senso moral em relação a valores autênticos como honestidade, transparência, autoridade, sinceridade, justiça, respeito, educação, solidariedade e humanização, impondo profundos desafios à nossa percepção da verdade.

No entanto, com a evolução tecnológica, alguns desafios continuam nos desvirtuando de valores morais por causa de uma suposta superioridade técnica das novas gerações. As telas e os ambientes virtuais exercem forte influência, quebrando paradigmas de nossos expedientes racionais que foram construídos tendo por base o relacionamento, o afeto, a proximidade, o transcendente etc. Em relação à moralidade, corremos o risco de entrar em um efeito manada, agindo sem qualquer juízo a priori. Essa fragilidade no discernimento racional e moral abre caminho para um fenômeno contemporâneo alarmante e inescapável: a sociedade da pós-verdade.

A pós-verdade favorece a produção de uma lógica muito arraigada de “desinformação”. Se o conteúdo simplesmente compactua com as paixões individuais, gerando despreocupação em relação à veracidade em nome de uma divulgação o mais rápida possível, o indivíduo se converte em um instrumento poderoso na mão de manipuladores. Estes visam a destruição ou, ao menos, a polarização e a desconfiança mútua, fenômenos que ecoam inclusive no interior da Igreja. Diante dessas situações, Jesus nos ensinou claramente como devemos reagir: “Entre vós não deve ser assim” (Mt 20,17).

Vale recordar que a expressão, pós-verdade, foi considerada a palavra do ano pela Universidade de Oxford, em 2016, acumulando uma década de protagonismo no debate público. Segundo o dicionário Oxford, o termo refere-se a “circunstâncias nas quais os fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que os apelos à emoção ou crenças pessoais”. A pós-verdade, que representa uma espécie de falência da racionalidade e da ética ocidentais, caracteriza-se pela relativização da realidade em benefício de convicções formadas em um cenário eminentemente afetivo e ideológico, ainda que sem nexo com a razão. Sob essa lógica, as coisas são de determinado modo apenas porque o indivíduo deseja que sejam, ou porque favorecem o seu discurso; tudo o mais deixa de interessar.

Diante desse cenário blindado por algoritmos e inteligências artificiais, o caminho de resposta exige retomar a lucidez conceitual da verdade. É aqui que a Encíclica Magnifica Humanitas (parágrafos 132 a 134) se torna um farol, pois o papa Leão XIV apresenta importantes reflexões sobre a verdade justamente no contexto das plataformas digitais. A encíclica define a verdade como um bem comum dotado de dimensões racional e relacional, fundamentado na necessidade de verificação e na confiança. Contudo, essa mesma verdade tornou-se um bem comum altamente vulnerável no ambiente digital, visto que a velocidade de circulação da informação e a personalização dos conteúdos impulsionadas pela IA dificultam a distinção entre fatos, opiniões ou conteúdos deliberadamente manipulados (cf. MH, 132).

Nos parágrafos seguintes 133 e 134, a reflexão é ampliada ao evidenciar os riscos da manipulação da verdade quando ela é subordinada aos poderes tecnológico e econômico, relacionando diretamente a verdade à dignidade humana. A verdade é apresentada pelo pontífice como condição essencial para a dignidade e para a democracia, não podendo ser reduzida ao que é meramente mais visível, lucrativo ou popular nas redes.

Finalmente, introduz-se a dimensão política do tema, demonstrando que a busca e o entendimento correto da verdade são requisitos indispensáveis para uma democracia autêntica neste tempo de transição tecnológica. No entanto, a perda desse referencial proposto pela Encíclica enfraquece a vida democrática e abre espaço para o surgimento de novas formas de totalitarismo digital. Afinal, como bem lembrava a famosa expressão atribuída a Mark Twain: “uma mentira pode fazer a volta ao mundo no mesmo intervalo de tempo em que a verdade calça seus sapatos”. Em tempos de IA, a mentira corre ainda com mais rapidez, o que torna urgente o alerta sobre a verdade na Magnifica Humanitas, como um imperativo para os nossos dias.

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