sábado, 3 de outubro de 2026

Memória dos Santos André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, presbíteros, Mateus Moreira e companheiros, mártires

As leituras de hoje nos conduzem por um caminho que passa pela dor, pela revelação e pela alegria espiritual. 

No livro de Jó, encontramos um homem que atravessou a noite mais escura da existência. Ele perdeu tudo, questionou, chorou, protestou, mas permaneceu diante de Deus. E ao final, reconhece: “Eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora meus olhos te veem.” A experiência do sofrimento não o destruiu; transformou-o. Jó descobre que a verdadeira fé não é apenas saber coisas sobre Deus, mas encontrar Deus no meio da vida, inclusive naquilo que não compreendemos. A restauração que Deus lhe concede, família, bens, longevidade, não é apenas recompensa, mas sinal de que a fidelidade atravessa a dor e chega à luz.

O salmo, por sua vez, é um canto de quem aprendeu com a prova. Ele afirma que foi bom ter sido humilhado, porque isso o ensinou os caminhos de Deus. A dor, quando vivida na presença do Senhor, torna-se mestre. O salmista reconhece que a fidelidade de Deus sustenta, que sua palavra ilumina, que sua misericórdia é mais forte que qualquer queda. É a oração de quem sabe que a vida espiritual não se constrói apenas com consolações, mas também com purificações.

No Evangelho, Jesus acolhe os setenta e dois discípulos que voltam cheios de alegria porque viram o mal ser vencido, viram o Reino acontecer. Jesus confirma essa alegria, mas a orienta: não se alegrem apenas pelos resultados, mas porque seus nomes estão escritos no céu. A verdadeira alegria não depende do sucesso, mas da comunhão com Deus. E então Jesus faz uma oração de júbilo ao Pai, agradecendo porque Ele revela seus mistérios aos pequenos, aos simples, aos que não se apoiam em si mesmos. A fé não é conquista intelectual; é dom acolhido com humildade.

Essas leituras ganham um brilho especial quando lembramos os mártires potiguares que hoje celebramos. André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, Mateus Moreira e tantos outros homens e mulheres que, em meio à violência e ao ódio, permaneceram firmes na fé. Eles não foram mártires por fanatismo, mas por fidelidade. Não morreram por ideologia, mas por amor a Cristo. Mateus Moreira, ao ter o coração arrancado, ainda pôde proclamar: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento!” É a fé que não se apaga nem diante da morte. É a fé que Jó descobriu no sofrimento. É a fé que os discípulos experimentaram ao ver o Reino vencer o mal. É a fé dos pequenos aos quais o Pai revela seus mistérios.

Os mártires nos ensinam que a vida cristã não é ausência de dor, mas presença de sentido. Eles nos mostram que a fidelidade vale mais que a segurança, que a verdade vale mais que o medo, que o amor vale mais que a própria vida. E nos lembram que o Evangelho não é teoria: é carne, é história, é testemunho.

Hoje, somos convidados a unir nossa vida à deles. Talvez não sejamos chamados ao martírio de sangue, mas somos chamados ao martírio cotidiano: permanecer fiéis quando é mais fácil desistir, amar quando é mais simples fechar-se, perdoar quando o coração quer vingança, manter a esperança quando tudo parece escuro. Somos chamados a viver como Jó, que encontrou Deus na dor; como o salmista, que aprendeu com a prova; como os discípulos, que se alegraram porque pertenciam ao céu; como os mártires, que entregaram tudo por Cristo.

Que esta memória reacenda em nós a coragem da fé. Que nos ajude a reconhecer que Deus se revela aos pequenos, aos humildes, aos que se deixam conduzir. E que nos inspire a viver com a mesma firmeza, a mesma serenidade e a mesma alegria dos mártires potiguares, que transformaram o chão do Rio Grande do Norte em terra de testemunho e santidade.

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