Com que autoridade fazes isso?
Uma homilia sobre a autoridade de Jesus,
a sede de Deus e a fé que não se deixa intimidar
A armadilha no pátio do Templo
Era pela manhã, e Jesus voltava ao Templo. O dia anterior havia deixado marcas: as mesas dos cambistas derrubadas, as pombas libertadas, os gritos dos comerciantes ainda ressoando entre as colunas de pedra. Jerusalém estava agitada. E os que se sentiam ameaçados por Ele haviam se reunido. Enquanto Jesus caminhava pelo pátio do Templo e ensinava ao povo, um grupo se aproximou com passo calculado: sumos sacerdotes, escribas e anciãos, a elite religiosa e política de Israel, reunida numa só delegação. Não vieram para aprender. Vieram para encurralar.
A pergunta parecia simples, mas era uma armadilha de dois gumes. Se Jesus dissesse "por minha própria autoridade", poderiam acusá-lo de blasfêmia. Se invocasse Deus sem provas que eles reconhecessem, poderiam ridicularizá-lo diante do povo. Estavam certos de que o tinham cercado. Mas Jesus não era um homem que se deixava encurralar pelas perguntas dos que não buscavam a verdade, apenas o poder.
A contra-pergunta que revelou tudo
A delegação ficou paralisada. Marcos nos deixa ver o que se passou dentro daquelas cabeças calculistas: se dissessem "do céu", Jesus perguntaria por que não creram em João. Se dissessem "dos homens", o povo, que venerava João como profeta, se voltaria contra eles. O cálculo político os havia aprisionado. E então disseram as palavras mais honestas que provavelmente disseram naquele dia: "Não sabemos." Não era humildade. Era a confissão involuntária de quem não pode falar a verdade porque a verdade lhes custaria o poder.
Diante disso, Jesus simplesmente respondeu: "Nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas." Disse isso não por querer fugir da pergunta, mas porque a autoridade de Jesus só pode ser reconhecida por quem está disposto a acolhê-la. A quem fecha o coração, nenhuma explicação basta. Aqui entra Judas, o apóstolo, na primeira leitura, não o traidor, mas o guardião da memória apostólica. Ele escreve a comunidades ameaçadas por quem distorce a fé para servir a si mesmo, por quem usa a religião como instrumento de poder e prazer. E a sua exortação é precisa:
A verdadeira autoridade não se impõe, edifica. Não se fecha em cálculos, abre-se em amor. E o discípulo que vive assim não precisa ser interrogado sobre a sua fé: ela fala por si mesma. O Salmista, neste sábado, nos dá a chave mais profunda de tudo. Não é uma discussão sobre autoridade. É uma sede:
Os sacerdotes e escribas chegaram ao Templo com uma estratégia. O Salmista chega com uma sede. São duas formas completamente diferentes de se relacionar com Deus, e apenas uma delas leva ao encontro verdadeiro.
Que pergunta nós fazemos a Jesus?
Irmãos e irmãs, esta cena nos convida a uma honesta pergunta interior: quando vimos à presença de Deus, nesta liturgia, nesta oração, nesta leitura da Palavra, que tipo de pergunta trazemos? Trazemos a pergunta dos sacerdotes, que queriam encurralar Jesus para manter o seu lugar? Ou trazemos a sede do Salmista, que desde o amanhecer busca a Deus porque sem Ele a alma resseca?
Há uma diferença entre frequentar a religião e buscar a Deus. Entre saber as respostas certas e deixar-se transformar pela Presença. Os escribas sabiam as Escrituras de cor, e não reconheceram o Filho de Deus diante dos seus olhos. Judas nos exorta hoje a ser diferentes: edificar-nos na fé, orar no Espírito Santo, manter-nos no amor, e ter misericórdia dos que duvidam, salvar os que estão à beira do fogo, sem nos contaminar pelo mal que os cerca. É a autoridade do amor, que não precisar ser declarada, apenas vivida.
No fim, a autoridade de Jesus não precisou de aprovação dos sacerdotes. Ela se manifestou na cruz, se confirmou na ressurreição, e continua se revelando em cada vida que, sedenta como terra árida, se abre para recebê-lo. Que essa seja a nossa disposição hoje, não a de quem interroga, mas a de quem busca.

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