O mundo acompanha o embate entre o Papa Leão XIV e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O primeiro clama por paz. O segundo vive buscando guerra. O primeiro confia na mensagem do Evangelho. O segundo na força das armas. O primeiro projeta valores humanísticos. O segundo valores econômicos. Podemos continuar apresentando os contrapontos, com a consequente clareza da nossa escolha e objeto de validade; pois, como discípulos de Jesus Cristo, a paz é um Dom que confirma a Era verdadeiramente messiânica, na qual o Reino de Deus está acontecendo, e ela tem como principal característica a existência da paz (cf. Jo 20, 19.21.26; Mt 5, 9). Os filhos de Deus e discípulos de Jesus estão ao lado da paz. Não justificam a guerra e as armas; pois, quem com o ferro fere; com ele será ferido (cf. Mt 26, 52). A guerra fomenta tudo o que pode acontecer à destruição da própria humanidade.
Nesta linha de reflexão, considerando essa tradição semítica, sempre chamou-me à atenção, nas duas vezes em que fui à Israel para cursos de atualização sacerdotal, é o fato de que quando entramos no avião das empresas aéreas daquele país, a saudação imediata é esta: Shalom - Paz! Segundo Mackenzie, “o verbo cognato do substantivo significa coisas tais como terminar, completar, pagar; assim pode-se dizer que a palavra significa em geral completação, perfeição, talvez mais precisamente, uma condição à qual não falta nada. Era a saudação comum e expressão de bons desejos. O israelita concebia a paz como uma dádiva de Iahweh e, como tal, tornou-se um conceito teológico. Deve-se esperar a paz perfeita da salvação messiânica. O Messias é o príncipe da paz (cf. Is 9, 5-6), e, em seu reino, haverá paz sem fim” (cf. John L. Mckenzie. Dicionário Bíblico, pág. 704). Numa tradição na qual a saudação de paz é tão importante, a sua prática permanente é a da realização das guerras.
A Igreja, com a sua construção teórica, tem como pressuposto, a consciência da urgência da paz. Na sua história, por razões circunstanciais, já teve inserida em situações beligerantes; principalmente quando a sua autoridade espiritual confundiu-se com um poder temporal. Durante o período medieval até o inicio da modernidade, a própria necessidade de autodefesa fez com que conflitos perpassassem as fronteiras eclesiásticas, como a existência das cruzadas. Do final da modernidade até os nossos dias, principalmente, depois das duas grandes guerras mundiais (1914-18; 1939-45), tivemos um magistério sistemático e permanente da Igreja contra as guerras. À fundamentação desta breve construção, os remeto a duas referências que justificam patentemente os últimos posicionamentos do Papa Leão XIV, a saber: a carta encíclica do Papa São João XXIII - ‘Pacem in Terris’ (11/04/63) - e o ‘Discurso’ de São Paulo VI à ONU - (04/10/65). Sem dúvida, temos muito mais do magistério petrino sobre o tema, como as mensagens para o Dia Mundial da Paz, a cada primeiro de janeiro; mas aqui, especificamente, por questão metodológica, ficaremos somente com estas duas referências.
Os dois ensinamentos estão situados historicamente no contexto da Guerra Fria, com seus blocos americanos e soviéticos, com as ideologias capitalistas e socialistas. No contemporâneo, essas ordens sistêmicas estão repetidas, com alguns outros atores planetários, como a China, e no caso do oriente médio, o Irã e Israel. E ainda, cabem as denúncias feitas pelo saudoso e lúcido Papa Francisco, de que vivemos uma “terceira guerra mundial em pedaços”. Neste sentido, as palavras lapidares de João XXIII são atualizadíssimas: “A Paz na Terra, anseio profundo de todos os homens de todos os tempos, não se pode estabelecer, nem consolidar, senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus” (cf. Pacem in Terris, Introdução). O paradigma é teológico, a perspectiva é a da palavra de Deus, a da Tradição Viva da Igreja, que considerando os “sinais dos tempos”, apresenta o cuidado e o ensinamento da Igreja a todos os homens e mulheres de boa vontade, que estavam reconhecendo a urgência da paz para todos os povos. Denunciava o Papa Roncali que “contrasta clamorosamente com a perfeita ordem universal a desordem que reina entre indivíduos e povos, como se as suas mútuas relações não pudessem ser reguladas senão pela força” (cf. Pacem in Terris, 4).
Nas sequencias da missiva, com as primeira e segunda parte, o pontífice retoma questões antropológicas e relacionais que exigem o respeito aos direitos pessoais e sociais das nações, com seus ordenamentos jurídicos, assumindo como o ponto de partida, a ‘Declaração Universal dos Direitos Humanos” (1948). Na ordem que deve vigorar entre os homens, afirmava o pontífice, é fundamental “uma convivência humana bem constituída e eficiente, é fundamental o princípio de que cada ser humano é pessoa; isto é, natureza dotada de inteligência e vontade livre. Por essa razão, possui em si mesmo direitos e deveres, que emanam direta e simultaneamente de sua própria natureza. Trata-se, por conseguinte, de direitos e deveres universais, invioláveis, e inalienáveis” (cf. Pacem in Terris, 9). Antes da preocupação com o direito internacional, a intenção do pontífice era a de fazer ver que as nações precisavam assumir o respeito aos direitos de cada cidadão, de cada pessoa ao interno de cada país, com a sua soberania e ordenamentos jurídicos próprios, sempre atentos à dignidade de cada ser humano. No magistério do Papa João essa questão assumirá grande relevância, porque a partir dele o magistério social da Igreja terá uma reviravolta metodológica, com a preocupação de priorizar o método indutivo - particular - para dedutivo - universal.
Na terceira parte, que será a impostação específica para a qual chamo a atenção de cada leitor, já que o Papa Leão foi acusado estupidamente de “não saber de direito internacional” e de ficar atento em “tratar de teologia”, considerando que os seus atos e falas estão em plena continuidade com os dos seus predecessores, cabe a recepção do que disse o Papa João XXIII sobre os princípios que devem nortear as relações das comunidades políticas entre si: “Queremos confirmar com a nossa autoridade os reiterados ensinamentos dos nossos predecessores sobre a existência de direitos e deveres internacionais, sobre o dever de regular as mútuas relações das comunidades políticas entre si, segundo as normas da verdade, da justiça, da solidariedade operante e da liberdade. A mesma lei natural que rege a vida individual deve também reger as relações entre os Estados” (cf. Pacem in Terris, 80). Quando os países mais ricos assumem atitudes de desrespeito e violências à ordem internacional que deveria ser respeitada, os outros povos, etnias, minorias e, até, civilizações passam a ser ‘ameaçadas’ de destruição em massa, como aconteceu recentemente; e, por isso, a fala do Papa Leão de que era “inadmissível” determinado tipo de narrativa. Entram em cena questões de seríssima gravidade moral, que nos mostram que as atrocidades cometidas nas últimas guerras mundiais ainda fervilham a cabeça de “tiranos” que pensam em dominar o mundo pela força.
Referindo às relações internacionais, o pontífice afirmava que “é preciso ter em conta que, também em assunto de relações internacionais, a autoridade deve ser exercida para promover o bem comum, pois esta é a sua própria razão de ser” (cf. Pacem in Terris, 84), caso ela esteja baseada exclusiva ou principalmente na ameaça ou no temor de penas, ou na promessa e solicitação de recompensa, “não levaria eficazmente os seres humanos à realização do bem comum. Se por acaso o conseguisse, isso repugnaria à dignidade de seres dotados de razão e de liberdade. A autoridade é sobretudo, uma força moral” (cf. Pacem in terris, 48). O bem comum, que “consiste no conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana” (cf. Pacem in Terris, 58) passa a ser entendido também nas relações internacionais como os meios a serem usados para o desenvolvimento integral dos povos. Depois, o Papa Paulo VI desenvolverá bem essa idéia do magistério social na Populorum Progressio - Progresso dos Povos. Vejamos que a partir destas definições, já temos muitos fundamentos para analisarmos filosófica e teologicamente os ordenamentos da geopolítica contemporânea, a partir dos fundamentos tão atuais já postos pelo Papa João XXIII e que aparecem nos últimos ensinamentos do Papa Leão XIV.
Desde o inicio do seu ministério petrino, o Papa ‘americano-latino’, já que durante mais de vinte anos viveu no Peru, nosso país vizinho, e ali recebeu também cidadania, o tema da paz é-lhe caro: “vos saúdo com a paz desarmada e desarmante!” Já temos conteúdo suficiente para prospectar que o seu pontificado será marcado por esse tema. O que fora percebido pelo Papa Francisco, sobre o cenário de “guerras em pedaços”, tem sido enfrentado por ele, com muita ‘coragem’ e liberdade, diferente do que fora acusado desrespeitosamente, pelo megalomaniaco presidente americano, de “fraco”. Tem deixado claro que não teme, nem está a serviço dos tiranos dos nossos “tempos sómbrios”, como já descrevia Hannah Arendt, quando descrevia os cenários absolutistas do fascismo e do nazismo. Também naquele contexto ela já apresentara o Papa João XXIII como um homem marcante à necessária compaixão da humanidade daqueles tempos. Já estamos a perceber que Leão será uma das grandes personalidades da atualidade que, à luz do Evangelho, trará a voz da esperança ao coração da humanidade desorientada e ferida pelas violências da nossa Era.
Algo que sintetiza essa terceira parte da encíclica, e responde a alguns questionamentos sobre a inquietação do Papa tratar das questões relacionadas à guerra, é a firmação de João XXIII, que citando o seu predecessor, Pio XII, afirmou que “Nada se perde com a paz; mas a guerra tudo pode destruir” (cf. Pacem in terris, 116). E reafirma que “como Vigário de Jesus Cristo, Salvador do mundo e autor da paz, interpretando os vivos anseios de toda a família humana, movidos pelo amor paterno para com todos os homens, julgamos dever do nosso ofício pedir encarecidamente a todos, e sobretudo aos chefes das nações, que não poupem esforços, enquanto o curso dos acontecimentos humanos não for conforme à razão e à dignidade do homem (cf. Pacem in Terris, 117). Além das preocupações que assolam as narrativas da administração Trump, devemos ter presente que esses discursos do Papa Leão estão associados à sua visita apostólica a países africanos que vivem constantemente em situações belicosas. O drama não está voltado unicamente aos Estados Unidos, mas é uma palavra profética ao mundo.
Em linha de continuidade ao pensamento de João XXIII, há o discurso do Papa Paulo VI à ONU - Organização das Nações Unidas - que merece uma leitura acurada; pois nele, encontra-se não só o que esse Organismo das Nações precisa ser para o mundo, como também o papel espiritual e moral da Igreja naquele contexto, e em nossos dias. À ONU afirmou Montini que “a Nossa mensagem quer ser, antes de mais, uma ratificação moral e solene desta nobre Instituição. Esta mensagem vem da Nossa experiência histórica. É como ‘técnico em humanidade’ que Nós trazemos a esta Organização o sufrágio dos Nossos últimos predecessores, o de todo o Episcopado católico e o Nosso, convencidos, como Nós o estamos, de que esta Organização representa o caminho obrigatório da civilização moderna e da paz mundial” (cf. Discurso, 1). Essa confirmação pontifical, traz ao nosso conteúdo a ratificação de que a ONU deveria ocupar o lugar de maior relevância ao respeito e defesa do direito internacional; mas, a sua negação, como temos visto constantemente, pelo presidente, tem um escopo estratégico aos seus interesses. Essa desconstrução, inclusive com a iniciativa de ser criado outro organismo, que favoreça os seus interesses imperialistas, é maldosa e destrutiva.
Os dois textos são complementares e descritivos da postura assumida e defendida legitimamente pelo Papa ora reinante - Leão XIV. É digno de nota a sua fala, logo quando foi atacado pelo presidente americano, e questionado por um jornalista enquanto viajava aos países a serem visitados por ele: “não pretendo entrar em embates políticos com Ele”, referindo ao algoz. O Sucessor de Pedro tem consciência da sua missão. Deixou claro que continuará falando do tema da paz à luz do Evangelho que, o ensinamento de Jesus, já exposto na nossa introdução, é claro: “bem aventurados os que promovem a paz” (cf. Mt 5,9). Antes dele, também afirmara Paulo VI no discurso à ONU que “ele não tem qualquer poder temporal, qualquer ambição de entrar em competição convosco. De fato, Nós nada temos a pedir, nenhuma exigência a fazer, mas apenas um desejo a formular, uma permissão a solicitar: a de vos poder servir naquilo que cabe no âmbito da Nossa competência, com desinteresse, com humildade e amor” (cf. Discurso). Ainda que “para Nós, em primeiro lugar. Bem sabeis quem Nós somos, e, qualquer que seja a vossa opinião sobre o Pontífice romano, conheceis a Nossa missão: somos portadores de uma mensagem para toda a humanidade. E somo-lo, não apenas em Nosso nome pessoal e em nome da grande família católica, mas também em nome dos irmãos cristãos que compartilham dos sentimentos que aqui manifestamos, e, especialmente, daqueles que quiseram encarregar-Nos, explicitamente, de sermos o seu intérprete” (cf. Idem). Essa relação e continuidade, a partir de uma “justa hermenêutica”, como nos ensinou Bento XVI, é algo fulcral para que estejamos em comunhão e atentos à Verdade, numa época de pós-verdades e polarizações ideológicas.
Diante de tudo isto, e já concluindo, temos lido durante estes dias os Atos dos Apóstolos, e vale mencionar uma das características do estilo de vida das primeiras comunidades cristãs: “elas eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos Apóstolos” (cf. Atos 2,42). Os Papas para nós católicos são a continuidade da sucessão apostólica. O ataque ao Papa é uma ofensa à Igreja na sua catolicidade. No reconhecimento da paz como um sinal do Reino de Deus a ser buscado e defendido por cada discípulo de Jesus Cristo e, caso não seja cristão, um ser humano de ‘boa vontade’, aquele desrespeito é uma violência à humanidade, pois temos aqui duas personificações: O Papa Leão - a paz - e Presidente Trump - a guerra. Como já nos ensinara o Papa Francisco, que precisamos de um ‘novo humanismo’, a luta pela paz transcende ideologias e concepções particulares. Ela é um dom de Deus para quem tem fé e uma conquista diária para os que são amantes da justiça. Como cristãos e consonantes com o autêntico magistério da Igreja, abracemos e, à luz do Evangelho, sejamos seus promotores. Assim o seja!
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