quarta-feira, 17 de novembro de 2021

PADRE JOÃO MEDEIROS FALA SOBRE A CHATICE E SUA EVOLUÇÃO NA SOCIEDADE

 Chatos em alta  



Padre João Medeiros Filho
Arquidiocese de Natal
Todos nós passamos por situações incômodas, ouvimos pessoas inconvenientes, suportamos conversas inoportunas, numa palavra, realidades sinônimas de chatice. Há anos, éramos importunados, sobretudo pelo telefone. Os tempos mudaram e hoje somos vítimas das redes sociais, e-mails, internet, whatsapp etc. Quem não acha irritante o toque do celular fora de hora e lugar? Como não ficar chateado com alguém que interrompe a conversa ao vivo para atender o “telemóvel”, como dizem os lusitanos? Com o advento desse aparelho o encontro presencial passou a ser secundário. Não raro, ficamos em segundo plano e compasso de espera. Apesar dos avisos para desligar os celulares em teatros, igrejas, auditórios, consultórios, clínicas, salas de aulas, sempre há os “esquecidos” transgredindo essa regrinha básica de convivência social. Isso faz-nos lembrar do livro de Guilherme Figueiredo, intitulado Tratado Geral dos Chatos, publicado em 1962 pela Editora Civilização Brasileira.

A chatice é descrita ali como falta de educação, inconveniência, algo maçante, enfadonho, grosseiro, repetitivo, “mala sem alça”, que estraga nosso bom humor ou prazer. Figueiredo aponta vários tipos de chatos: o etílico, o dom-juanesco, o confidencial (que gosta de falar ao pé de nosso ouvido e cospe em nossa cara), o astrochato, o tradicional chato-de-galocha, o sem noção etc. A revista Superinteressante, em uma de suas últimas edições, chama a atenção para alguns tipos de chatos: os nautachatos, manchetistas, lobistas... É impossível fazer um levantamento completo, pois se multiplicam numa velocidade estonteante e acompanham o avanço da informática. Recentemente, apareceram com força total o e-chato, o politicamente correto, o academicamente certo, o estritamente científico, o fundamentalista religioso ou político. Há os que pregam a revolução por um determinado partido, escolhido por um grupo, como se fosse indicado por Deus. Chateiam-nos porque querem nos convencer de que seu discurso é o ético, o único capaz de nos salvar.

Há quem afirme que a proliferação dos chatos decorre do crescimento da intolerância entre as pessoas, do declínio do sentido de civilidade em nossa época, da invenção de novas tecnologias sem a contrapartida de regras específicas para o seu uso social. Ao contrário das tradicionais pesquisas, acreditamos que uma análise acurada da vida cotidiana de nossa organização familiar e social poderia trazer um entendimento sobre fontes e porquês do aumento do número de chatos e chateados no mundo. Se existe algo que deve nos deixar preocupados é, sem dúvida, a possibilidade de sermos também um chato, mesmo inconsciente ou involuntariamente. Ninguém está imune a tal “doença”, que afeta milhares de pessoas e, por contágio, outras tantas que não a têm.

Somos vítimas de ligações desagradáveis, aborrecedoras, em suma, chatas. Há corretores de imóveis, que telefonam para o nosso aparelho fixo ou celular e passam a oferecer empreendimentos imobiliários de diversos tipos. Recebemos chamadas de instituições filantrópicas, operadoras de telefonia ou televisão a cabo, internet e outras, com planos mirabolantes. Existem até aqueles que nos oferecem túmulos e planos funerais. Claro, essa é uma realidade inexorável, mas não deverá ser abordada em horas impróprias. Há quem repasse (sem nossa autorização) listas dos números de telefones, endereços, e-mails, cadastro para mala direta etc. Como se não bastassem, temos ainda algumas chatices do whatsapp, facebook, instagram etc. forçando-nos a compartilhar correntes supersticiosas, que nos deixam constrangidos, se as quebrarmos. Um ano eleitoral é pródigo dessas atividades, marcado por uma pletora de cartas, panfletos e telefonemas com a gravação na voz de algum artista ou do próprio candidato. Será que não se pode adotar alguma medida jurídica para diminuir tanta coisa que nos aborrece?

Um amigo de Mossoró encontrou uma maneira, até agora infalível, para os telefonemas impertinentes e tediosos. Ao sentir de que se trata de chamadas de telemarketing, oferecendo isso e aquilo ou pedindo contribuição para entidades (que não sabemos se são idôneas), ele emprega o método das operadoras de telefone. Atende a ligação e diz: “Um momento, por favor”, coloca uma musiquinha e deixa o interlocutor esperando. Isso faz com que a chamada tenha uma duração longa, atrasando a meta de contatos do marqueteiro. Não devemos esquecer que chatear os outros é falta de caridade. Mas será que muitos se dão conta realmente disto? Lembremo-nos do ensinamento bíblico: “Não faças a ninguém o que não queres que te façam.” (Tb 4, 15).

C A D NATAL

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